O Sonho e a Revolução

26 out

O SONHO E A REVOLUÇÃO

J can Schuster
Le Libertaire, 26 de outubro de 1951

O sonho nao é o contrário da realidade. Ele é um aspecto
real da vida humana, assim como a ação; e um e outra, bcm
longe de excluirem-se, completam-se, Todavia, este aspecto,
neglicenciado ou voluntariamente relegado ao plano das su-
perstições perigosas pela civilização atual (a das casernas,
das igrejas e das delegacias) contém os fermentos de revolta
mais violentos por serem os mais profundamente humanos.
Compreende-se que a vontade de obscurantismo dos mes-
tres-penradores seja sempre manifestada por um desprezo
total em relação ao sonho. Sua inteligência limitou-se a
tolerar (e talvez a favorecer) a difusão das “Chaves dos So-
nhos”, obras desnaturadas, de caráter puramente supersti-
cioso, fantasioso ou idiota. Mas os povos que o odioso bom
senso europeu obstina-se em denominar “primitivos” (primi-
tivos porque nunca conhecerão os segredos da bomba atô-
mica, ou simplesmente da hipocrisia diplomática) concedem
ao sonho um lugar de primeiro plano,
Freud, desvelando o mecanismo do sonho, interpre-
tando-o, demonstrou que ele constituía o perfeito revelador
das tendências e dos desejos mais secretos do homem. Sabe-
se agora que não existe sonho gratuito, que pelo simplcs fato
de sonhar o homem muda seu destino, mesmo que essa mu-
dança permaneça impereeptível. Desperto, o homem apre-

ende do mundo o que sua razao e seus sentidos bem quiserem
deixar-lhe aperceber, isto é, uma íntima parte do que real-
mente é; em sonho, os objetos, os sentimentos, as relações
mais audaeiosas tornam-se-lhes lícitas, familiares. Desceu ao
coração de si mesmo, ao coração das coisas.
Isto e válido tanto para as coletividades quanto para os
indivíduos. Se o sonho é a expressão do desejo, se a expli-
cação de um pode preludiar. numa certa medida, a realização
do outro, o maior desejo coletivo e a revolução. G.C. Lichten-
berg lamentava que a história fosse feita unicamente da nar-
rativa dos homens despertos. Quando, numa noite, todos os
explorados sonharem que é preciso acabar e como acabar
com o sistema tirânico que os governa, aí então, talvez, a
aurora surgirá em todo o mundo, sobre barricadas.

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Falæ

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