Pão e Diversões

9 nov

Le Libertaire

Pão e Diversão

“Nasci sobre esta terra; exijo a admissao em todos os trabalhos que nela se exercem, a garantia de usufruir do fruto de minha labuta; exijo o adiantamento dos instrumentos necessários para exercer esse trabalho e da subsistência em compensação ao direito de roubo que a simples natureza me deu” (Charles Fourier, Associação doméstica e agrícola, 1822).

Aí está perfeitamente esquematizada a solução econômica, entretanto, ela está longe de esgotar o problema.
“Sendo o objetivo conduzir inicialmente ao luxo … preciso que a educação conduza ao trabalho produtivo; ela só pode conseguir isso fazendo desaparecer uma tarefa bem vergonhosa para a civilização, e que não se encontra entre os selvagens: é a grosseria e a rudeza das classes inferiores, a duplicidade de linguagem e de modos, Esse vício pode ser necessário entre nós, em que o povo, esmagado por privações, sentiria muito vivamente sua miséria se fosse educado c culto; mas, no estado societário em que o povo gozará de um mínimo, superior ao destino de nossos bons burgueses, não será necessário embrutecê-lo para modela-lo a sofrimen-
tos que não mais existirão” (Charles Fourier, mesma obra), Eis, portanto, retirada toda ambigüidade. Em sociedade liber~
leiria, o trabalho prúdutiva exigirá o refinamento dos costumes o do pensamento, O que será, portanto, esse trabalho?
Antes de mais nada, sabemos que, bem compreendido c bem repartido, ele poderia ser desde já reduzido a um curtíssimo tempo de serviço cotidiano para cada indivíduo. O automatismo robótico que cria, em regime capitalista, os flagelos do desemprego e da superprodução não deve oferecer a cada homem, além do direito ao trabalho, senão o direito a preguiça. Além disso, esse trabalho, liberado da exploração patronal e das condições impostas por um produtivismo de curta visão, reduz, na maioria das vezes, a simples vigilância das máquinas, as quais o operário, homem culto, conhecerá, a exemplo do antigo artesão, tão perfeitamente a vida íntima quanto 0 manejo prático – esse trabalho, tornado de novo atividade normal como 0 beber e o comer, será não apenas uma necessidade social, mas igualmente individual. Em outras palavras, o trabalho não mais será essa perpétua escravização que a religião justifica enquanto “castigo divino”.

Nessa perspectiva, certas atividades consideradas ainda hoje pela maioria como irremediavelmente reservadas a uma minoria, vão encontrar uma nova fórmula. Refiro-me à pesquisa científica e à criação artística. O luxo do qual fala Fourier, deve ser, no domínio do espírito bem como na prática, acessível a todos. É o que deveria explicar, cem anos após o autor da Associação doméstica e agrícola, a interrogação feita pelos surrealistas: “O surrealismo é o comunismo do espírito?”.

Supondo que, sob regime hierárquico, Newton, “se ele tivesse sido marinheiro ou mineiro… não teria descoberto a lei da gravitação universal” (Gaston Lcval, Estudos Anarquistas, n 6), a sociedade libertária devera, ao contrário, dar a todos o tempo livre para ver as maçãs caírem e extrair desse fato tais conclusões que lhes aprouver – e nisso consistirá sua grande vitória.

Em corolário à redução maciça das horas de trabalho, assistiremos à multiplicação das possibilidades de satisfazer
a necessidade de conhecimento inerente a cada um dos que não tinham anteriormente tempo livre para isso. E podemos
pensar que a acessibilidade da criação artística e poética a todos estaria longe de ser um empobrecimento: basta consta-
tar o declínio da canção popular nas mãos dos “profissionais”.

Na realidade, é a aplicação do novo regime que apresenta os problemas mais árduos, sendo os períodos de transição os mais  difíceis. Trata-se, para resultar na situação que acabo de evocar, de partir de uma organização (se se pode assim dizer) onde as massas populares estão, em geral, insensibilizadas e esterilizadas por um feixe de demagogias contraditórias em seus meios, senão em seu fim, enquanto a atividade mental, que deveria ser para todos o essencial, encontra-se monopolizada por alguns especialistas raramente desinteressados.

Não se deve, durante o período de reorganização política e econômica, que requer uma atividade intensa por parte de
todos, negligenciar um único instante a delicada tarefa de restabelecer em todos os seus direitos a consciência indivi-
dual. O exemplo de Barcelona (l936) provou-nos que nada impede, em período revolucionário, o desenvolvimento das
escolas e das universidades populares. É preciso ainda que o ensino ministrado não o seja ao acaso: sabemos muito bem
que o falso conhecimento é pior do que a ignorância, e pensamos de bom grado que uma consciência mais clara das
necessidades profundas do homem, considerado como um lodo vivo, cujos princípios materiais e espirituais não cessam
de reagir uns sobre os outros, teria evitado vários erros de julgamento fatais aos revolucionários do passado.

Eis por que pensamos que toda propaganda revolucionária será ineficaz se ela limitar-se ao domínio social e econômico: a reivindicação humana deve estender-se para bem além do pão e do vinho cotidianos como, apesar de tudo,

Guy Doumayrou
9 de novembro de 1951

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