Redes virais, o espectro aberto e poder computacional

4 fev

Poder comunicacional, redes virais e o espectro aberto

A tecnologia é simples transmitir sinais. Uma adequação técnica na placa de transmissão e recepção de sinais de um computador e a implantação de um algoritmo inte-ligente de roteamento podem transformá-lo em uma máquina de telecomunicar. O computador foi criado para processar informações. Em seguida, foi transformado em uma máquina de comunicar. Hoje o computador está se tornando uma máquina de telecomunicar.

Estamos vivenciando o surgimento de uma rede de comunicações não baseada na infra-estrutura tradicional de “telefonia”. Tal possibilidade choca-se contra as tentativas de concentração de poder comunicacional e de expansão da extração de riqueza promovida por grupos econômicos, consolidados durante o capitalismo industrial.

Noções como sociedade da informação e sociedade do conhecimento reforçam a percepção de que estamos construindo uma sociedade da hiper-comunicação cujo salto decisivo ocorreu com a crescente centralidade da comunicação mediada por computador. Cada novo uso e reconfiguração do computador não eliminou os usos anteriores.

O computador continua sendo uma máquina de processar e de comunicar. Todavia, a comunicação mediada por computador está avançando rapidamente do modelo estático para o universo da mobilidade.

A conexão sem fio está em expansão e vai adquirindo contornos de um futuro hegemônico. Quando pensamos em computadores pensamos na rede, na internet. Pensamos em comuni-cação, mais do que em processamento. Agora, a comunicação mediada por computador já permite-nos pensar em telecomunicação, em conectividade colaborativa, ou seja, em redes de comunicação virais.

A topologia mesh ou malha possibilita a formação de redes virais de comunicação. A palavra vírus traz consigo imagens ou idéias de contaminação, multiplicação, reprodução rápida e fulminante. Para a biologia, um ví- rus é um microrganismo que se multiplica usando a célula do seu hospedeiro. Na computação, o vírus é um programa malicioso que vem dentro de outro programa, que faz cópias de si mesmo e tenta se espalhar pelos demais computadores. No cenário dos negócios, o marketing viral é a propaganda boca a boca. No mundo das redes, a idéia da comunicação viral passa pela formação de uma rede que utilize cada computador nela conectado como hospedeiro e reprodutor do fluxo de comunicação.

A mensagem para ir da zona norte à zona sul de uma cidade utilizaria os inúmeros computadores e roteadores que estariam no caminho como verdadeiras torres de retransmissão de sinais. Os pacotes de informação, como um vírus, iriam saltando de máquina em máquina até o seu destino final.

O computador que está sendo construído pela equipe dos professores Nicholas Negroponte e Seymour Pappert, no projeto denominado OLPC (One Laptop per Child), contém um mecanismo que permite retransmitir sinais de outras máquinas mesmo quando estiver desligado.

Um módulo de energia, semelhante aos dos aparelhos de reprodução de vídeos, entram em atividade assim que receber um sinal. Isto permite superar os possíveis vazios de conexão para a transmissão viral em uma cidade quando as máquinas estiverem desligadas.

A primeira implicação de um sistema viral é econômica e pode afetar os negócios da telefonia e das telecomunicações em geral. A segunda é política e cultural, pois a rede viral é menos controlável que as redes lógicas baseadas em infra-estruturas de telefonia.

Também viabiliza a conexão de “última milha” sem custos ou com custos bem menores e aumenta a possibilidade de os segmentos mais pauperizados utilizarem as redes digitais. Descentraliza ainda mais os meios e instrumentos para as comunidades portarem seus conteúdos para a Internet. Enfim, existem implicações não previstas dada a recente implementação das redes mesh, mas o fato de a inteligência do roteamento, da conexão estar alocada em cada nó e não mais em um servidor central coloca dificuldades ainda maiores para aqueles que querem reduzir o compartilhamento livre de bens culturais e conhecimentos.

Alguns municípios brasileiros, entre eles Piraí e Quissamã, ambos no Rio de Janeiro, possuem experiências importantes de uso de wireless para conectar toda a cidade. Alguns deles já avaliam a implantação de redes virais para aumentar a velocidade de transmissão, reduzir o tráfego desnecessário de pacotes, diminuir custos de backbone, já que a comunicação entre computadores da localidade pode ser realizada diretamente.

A Anatel teme que se houver um crescimento vertiginoso das redes mesh, mesmo a partir de hotspots, pontos de roteamento espalhados pela área de cobertura, como no caso do campus da Universidade Federal Fluminense (RJ), esse fenômeno possa reduzir ainda mais os rendimentos das operadoras de telecomunicações.

Mais uma vez a história se repete. Para manter modelos de negócios e fluxos de riqueza pretende-se conter avanços tecnológicos e seus usos pela sociedade.

viral-network

A rede pode caminhar rumo à sua mais completa descentralização, não somente de sua parte lógica, mas também de seus elementos físicos. Para que redes virais possam ser implantadas e proliferar em todo o País é preciso que existam freqüências não-regulamentadas para a ocupação do espectro eletromagnético. Tal fato abre a última questão do texto, também gerada pela digitalização crescente da sociedade. Trata-se da questão da transformação do espaço por onde transitam as ondas de rádio, de um espaço privatizado, em uma via de uso comum ou público. Um dos pioneiros dessa formulação é Kevin Werbach. Seus argumentos são contundentes:

Transmitores e/ou recptores inteligentes podem engajar em uma comunicação sem fio de forma diferente dos sistemas estáticos tradicionais. Ao invéns de simplesmente esperar por um sinal de entrada, os receptores podem contribuir para o processo de comunicação. Mais do que radiação de sinal constante através de alvos estáticos, os transmissores podem criar o que eles enviam com máxima eficiência. Chamamos isso de comunicação dinâmica sem fios. Mudar a natureza dos dispositivos sem fios também afetam a maneira dos dispositivos se interagir uns com os outros, e o seus arredores. Em outras palavras, eles mudam o ambiente de interferência. Como foi dito antes, interferência é uma consequencia do projeto de sistema , em vez de uma propriedade inerente do espectro de rádio. Interferência também é parte inseparável da construção júridica. Nenhum sinal de radio no planeta Terra é perfeitamente puro. Há sempre um modo externo de radiação que colide com transmissões. Regulamentado ou outros mecanismos legais distinguem entre o ruído incidental permitido e não permitido.

(Werbach, 2002, Radio revolution: the coming age of unlicensed wireless, p14)

Werbach reivindica que o uso de rádios inteligentes, digitais e operados por software, permite superar as limitações da tecnologia analógica, do início do século 20. Defende que o espectro aberto pode coexistir com o modelo de licenciamento exclusivo tradicional. Há dois mecanismos para fa-

cilitar o compartilhamento do espectro: espaços não regulamentados e underlay (uso de baixa potência para transmissão). Atualmente, existem faixas de freqüência alocadas sem o direito exclusivo de ocupação. Um conjunto muito limitado de freqüências tem sido designadas como não-regulamentadas. O wi-fi utilizou deste espaço. Werbach propõe a ampliação das frequências não-regulamentadas.

O autor busca demonstrar que, com a tecnologia digital, a melhor metáfora para a comunicação sem fio não está na terra, mas nos oceanos. Milhares de barcos atravessam os mares. Certamente há algum risco de os barcos colidirem uns com os outros. Entretanto, alerta-nos Werbach, os oceanos são gigantescos diante do volume do tráfego do transporte, além disso os pilotos de cada barco, seguindo os protocolos de navegação, manobrarão para evitar as colisões. Para garantir a navegação segura, nós temos uma combinação das leis e de normas de conduta definindo como os barcos devem se comportar uns em relação aos outros. Um regime regulatório que dividisse os oceanos entre as companhias de navegação para facilitar o transporte seguro seria um exagero. Reduziria enormemente o número dos barcos que poderiam usar os mares simultaneamente e apenas serviria para elevar o preço do transporte oceânico.

Baseado nesses fundamentos surgiu um movimento denominado Open Spectrum ou espectro aberto. Ele defende a eliminação ou redução da necessidade de os governos regulamentarem as comunicações sem fio e, portanto, pedaços significativos do espectro radioelétrico. O movimento pelo espectro aberto é autodefinido como:

1) um ideal de liberdade no uso das radiofrequências;

2) uma crítica à atual gestão do espectro;

3) uma proposta que emerge das tendências de evolução dos rádios inteligentes

Os governos têm imposto limites ao uso dos rádios e determinado quem pode transmitir, quais frequências podem ser utilizadas, como devem ser suas ondas, sua potência, entre outros regulamentos. A maioria das pessoas aceita essas normas para a transmissão e recepção do rádio por acreditar que são necessárias para evitar as interferências.

As pessoas aprenderam que o espectro precisa de controle para evitar o caos. Entretanto, os rádios se tornaram inteligentes e superaram a tecnologia do início do século 20. Estamos no século 21 e a comunicação analógica perdeu hegemonia para a comunicação digital e para rádios controlados por software.

Atualmente, os telefones celulares GSM percorrem automaticamente o espectro para escolher um canal livre, viabilizando milhares de comunicações simultâneas. Também assinalam dinamicamente as freqüências quando os telefones estão ativados, fixam os níveis de sinais para uma conexão adequada.

Os rádio receptores inteligentes podem separar os sinais codificados inclusive quando estão ocupando o mesmo canal. Isso já está acontecendo nos espaços não regulamentados, e isso já ocorre quando as pessoas utilizam em suas casas um roteador wireless para conectar um ou mais computadores. Segundo a Open Spectrum Foundation, estudos recentes têm demonstado que as conexões estáticas de radiofreqüência estão gerando taxas de ocupação de banda inferior a 10%.

A defesa do espectro aberto é a defesa do uso compartilhado de um espaço vital para as comunicações. A proposta é regular o espectro como se regula o ciberespaço, a Internet. Ao invés de existir um controle governamental sobre quem pode e quem não pode abrir um provedor de acesso ou de backbone, um site ou um portal, existem os protocolos e padrões de comunicação que todos devem seguir. Estes protocolos foram desenvolvidos colaborativamente por técnicos, empresas, pesquisadores e usuários de modo aberto e não-proprietário. Sem dúvida, as possibilidades do espectro aberto colocam em questão também o modelo atual das concessões de rádio e TV. Potencializam as reivindicações do movimento de rádios e TVs comunitários e a crise dos modelos de negócios das companhias de telecomunicações e entretenimento nascidas na sociedade industrial.

Trecho do artigo de Sérgio Amadeu, Cientista Social e defensor das rádios livres.

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