Agroenergia e Ideologia

13 fev

Atualmente dois assuntos relacionados vem ocupando lugar absoluto destaque na mídia e na política em todo o mundo: aquecimento global e ‘biocombustíveis’. Não se trata aqui de discutir o fato evidente da mudança do clima que ameaça toda a vida do planeta nem a necessidade da humanidade buscar fontes de energia não destruitivas. Porém, é importante compreender como se articula o conteúdo ideológico deste par de conceitos que vem redesenhando: o discurso do poder dominante; o horizonte da política internacional; e, acima de tudo, liberando as estratégias de reprodução do capitalismo na transição para uma sociedade pós-petróleo.

Energia: soberania X segurança

Em primeiro lugar, um esclarecimento conceitual.

Seguindo o acúmulo da discussão  entre os movimentos sociais, os ‘biocombustiveis’ devem ser corretamente chamados de agracombustíveis, pois integram o universo do agronegócio enquanto projeto político hegemônico sobre nossos territórios e recursos naturais. Além disso, a opção por BIO-qualquer-coisa é apelativa, assim como a idéia geral de ‘ECO’ , ‘renovável’, ‘verde’, ‘limpa’, etc.; o ambientalismo de mercado não perde tempo em fixar sua terminologia nas mentes e corações, entre as quais, de muitos que se consideram ‘de esquerda’. Parece que há temos bastante claro, há algum tempo, que não existe capitalismo ‘sustentável’. A ‘sustentabilidade ‘ (infelizmente, pois foi e ainda é para muitos uma referência) já foi aprovada ideologicamente; entre praticamente todas as grandes empresas que tem suas ações de sustentabilidade, basta conferir que a empresa Aracruz  Celulose está, pelo terceiro ano consecutivo, na seleta lista de empresas do ‘Índice Dow Jones de Sustentabilidade’, 2007, que destaca as melhores práticas em ‘sustentabilidade corporativa’ no mundo. Os já bem conhecidos ‘critérios’ ou ‘indicadores’ de sustentabilidade, na verdade servem ainda para sustentar a falida lógica das “certificações”, por exemplo, entre tantos outros instrumentos de mercado que se apresentam para resolver questões que são políticas. Até que ponto é viável e se justifica disputar ainda o conteúdo do termo ‘sustentável’ ?

Como vemos, a disputa de visões de mundo se trava (também) no discurso e na rapidez com a qual os conceitos são apropriados.

No que interessa aqui, a FAO e os governos vem utilizando a defesa da ‘segurança energética‘ para promover os agrocombustíveis, editar leis de mistura obrigatória progressiva e justificar politicamente frente a sociedade estas medidas como ‘combate à mudança do clima’. Ainda que esta estratégia tenha um impacto massivo sobre terras agriculturáveis e a água, principais recursos para garantir a soberania alimentar dos povos, esta agenda esta sendo decidida em todo o mundo à margem de um amplo debate para a sociedade. Afinal, trata-se de garantir, a ‘segurança energética‘.

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No caso do Brasil, onde os agrocombustíveis se apresentam como um projeto de Estado, a promoção da agroenergia vem unificando o discurso dos vários setores e ministérios do governo do sob o controle e coordenação central da Casa Civil, pois ‘energia’, dizem, é assunto de ‘segurança nacional’. Podemos vislumbrar quão sérias podem vir a ser as consequências desta definição conceitual, quando a tutela sobre massivas extensões de terra para agroenergia fica comprometida não mais com a produção de alimentos para um povo, mas com a ‘segurança energética‘ nacional. Ainda mais quando está deverá servir para garantir a reprodução do agronegócio, que vem se consolidando, inconteste, como o projeto político e territorial hegemônico no Brasil.

Construir um conceito de Soberania Energética é fundamental para dialogar com o restante da sociedade: em que termos vamos apresentar uma proposta para disputar o desafio de gerar energia em tempos de aquecimento global e pico do petróleo e ao mesmo tempo garantir a soberania alimentar e resistir ao agronegócio?

Na Via Campesina, há mais de uma década, 1996, desenvolveu o conceito de “Soberania Alimentar” exatamente para apresentar um contradiscurso e um conteúdo político oposto à noção oficial da FAO de “segurança” alimentar e de como as negociações em torno ao comércio agrícola na OMC incidam sobre o direito à auto-determinação dos povos. Pelo indicativo, da mesma forma, é preciso elaborar em que consiste a lógica da nossa Soberania Energética.

Os agrocombustíveis ( e a agroenergia ) expressam em síntese um novo momento estrutural de relação entre capitalismo e agricultura, como já ocorreu antes: com o planejamento e a execução da Revolução Verde; com a privatização e a concentração do setor de sementes nas últimas décadas do século XX; com a institucionalização do marco legal da propriedade intelectual; do patenteamento sob o controle por algumas transnacionais através da disseminação da ‘biotecnologia’; com os transgênicos; com a ‘evolução’, hoje já práticamente naturalizada da agri-cultura para o agro-negóxio, no controle e integração de toda a cadeia produtiva, desde o campo.

Hoje, para suprir a demanda global de energia ‘renovável’ para a reprodução do capital é fundamental o controle de sua base territorial (em terras agriculturáveis tropicais). Neste quadro, a ‘vantagem’ do America Latina ( e do Brasil), como defendem alguns nacionalistas, é a condição de continente tropical, a qual a história ensina, serviu até hoje para condenar nossos povos e ecossistemas ao saqueio e à pilhagem colonial, desde as plantations até as modernas monoculturas biotecnológicas do agronegócio de hoje.

Se os agrocombustíveis estão promovendo novas relações de dependência e subordinação e implicando uma nova  geopolítica global, um projeto popular de geração de agroenergia, para promover ou assegurar a autonomia e a resistência sobre os territórios dependerá de encontrar lógica produtivas locais que afirme soberania alimentar visando transformar- e não reproduzir – o modelo de sociedade e de produção que nos trouxe até aqui. Mas neste momento é preciso definir e divulgar claramente como esta transição pode servir para construir um novo projeto de sociedade que não reproduza a relação de exploração da natureza e do trabalho, universalizada e naturalizada através do capitalismo e da injustiça e violência da civilização do petróleo.

AGROCOMBUSTÍVEIS E AQUECIMENTO GLOBÁL: (DEs)coNsTRu|NDo o DEBATE

O aquecimento global e sua relação com o debate energia/combustíveis é bastante complexo e este momento exige uma análise mais detida sobre como a (mudança do clima), (um gravíssimo problema global) está reorganizando o conteúdo do discurso político e reconfigurando os protagonistas do poder global.

Embora não seja um tema novo, a mudança do clima assume um caráter político internacional definitivo com o reconhecimento científico, no início de 2007, da ação humana como a principal musa do aquecimento global, através do impacto ambiental da energia empregada na atividade industrialização. Na série de relatórios elaborados pelo IPCC (Painel Internacional sobre a Mudança do Clima) por sua sigla em inglês), subordinado às Nações Unidas, cientistas de todo o mundo admitiram que o aquecimento global existe e é antropogênico, ou seja, causado pela ação humana; fizeram prognósticos consensuados sobre os cenários prováveis e as regiões mais vulneráveis aos impactos das mudanças climáticas; e por último, lançaram recomendações de açõesprioritárias a curto, médio e longo prazo que podem mitigar e inclusive reverter a mudança do clima. Entre essas, uma ação rápida e efetiva – a incorporação progressiva de biocombustíveis” no setar de transporte, setor que mais consome combustíveis líquidos derivados do petróleo.

Respaldados pelas recomendações do IPCC, os Estados nacionais passaram a obrigar, por lei, metas progressivas de mistura obrigatória de agrocombustíveis. A adoção da agroenergia aparece como um compromisso ‘dos governos’ em agir contra os efeitos do aquecimento global, mas que de fato também vem consolidando a criação de um mercado internacional de commodities agro-energéticas e de países que se perfilam como produtores e outros potenciais compradores.

Nesta mesma lógica, o tema do aquecimento global foi rapidamente incorporado ao discurso político tanto da esquerda como da direita, emblematizado no ativismo do (profeta) Al Gore, para criar o desconforto de Uma verdade inconveniente e propor soluções técnicas , (‘compre eletrodomésticos com tecnologia de eficiência energética’, ‘use carros motor flex’, ‘apoie energias limpas’, etc.). Só faltou defender abertamente “use sementes transgênicas resistentes à seca” … Nessa linha, o discurso hegemônico tem se restringido às formas de como conveniente o capital pode lucrar com os efeitos da destruição do planeta. É aí que entram os agrocombustíveis. E também o mercado de comércio de carbono e a instalação de ‘projetos de desenvolvimento limpo’, previstos para vender no mercado o direito de poluir/destruir e ‘compensar’ (para os países que pode pagar por isso) suas emissões. Cada vez mais a moral do século XXI vai se associando a quanto menor impacto de carbono os indivíduos tem – e isso também passa a ser um mercado. Pague para ‘descarbonizar’ sua vida (dos postos Ipiranga que já tem um cartão para isso ate’ às marcas de sabão em pó): empresas garantem o plantio de árvores que neutralizariam o impacto energético e no meio-ambiente de seu estilo de vida, sem demandar no seu padrão de consumo. Al Gore e o grupo de cientistas que elaboraram o IPCC acabaram de dividir o prêmio Nobel da Paz. Esta legitimação não é gratuita e as implicações não serão poucas.

Resumindo como chegamos até aqui:

Além da frequencia crescente de catástrofes naturais, eventos climáticos extremos e seus impactos econômicos, a mudança do clima tornou-se o assunto do momento porque a necessidade de reduzir as emissões de gases de efeito estufa, entre eles o CO², produzido sobretudo com a queima de combustíveis fósseis, enfrenta um impositivo bem concreto: o esgotamento progressivo das reservas mundiais de petróleo.

De fato, antes de chegar à exaustão das reservas existentes, (mas que está cada vez mais próxima), estaríamos vivendo o chamado Pico do Petróleo (Peak Oil) ou Pico de Hubbert. Isso quer dizer que, mesmo sob várias controvérsias, concorda- se que entre 2005-2025 entramos em uma fase de declínio irreversível, na qual gasta-se mais energia para extrair um barril de petróleo da que a energia líquida e transportável que ele disponibiliza. No cálculo econômico isso seria a “depleção” das reservas de petróleo, ou seja, diz respeito a disponibilidade de petróleo a um preço viável frente a seus sucedâneos como energético de largo uso. Considerando o custo de toda a geopolítica e do aparato militar necessário para manter o controle sobre as maiores campos petrolíferos existentes, como é o caso da guerra do Iraque, este tal preço viável fica ainda maior. Para combater a mudança do clima e ao mesmo tempo manter a economia funcionando e “crescendo”, estaríamos vivendo hoje um momento de transição de uma etapa histórica da civilização industrial – dependente do petróleo como principal matriz energética – em direção progressiva à adoção de uma nova matriz energética, composta por várias fontes (renováveis, biomassa, hidroelétrica e em bem menor medida, etc. Neste movimento, vem tomando corpo o discurso de ‘descarbonizar’ a economia, incorporando combustíveis líquidos, como o etanol e o biodiesel, obtidos a partir da biomassa vegetal proveniente de cultivos agrícolas destinado a esse fim.

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Neste quadro, o processo de acumulação capitalista de aprofunda, as economias “crescem”, e os países, se “desenvolvem”. Assim como no Brasil estamos hoje sob um mega plano governamental de “aceleração do crescimento” (PAC), outros países. “em desenvolvimento”, como a China e a Índia, demandam cada vez mais energia e queimam petróleo, carvão e gás para alimentar a industrialização poluidora” (no caso, de produtos que serão consumidos em todo o mundo, mas sobretudo no norte).

Ou seja: para seguir mantendo e reproduzindo a sociedade urbana e industrial será necessário assumir o controle de gigantescas áreas de terra agriculturável e industrializar massivamente, ainda mais, o campo. A vida urbana, do transporte ao abastecimento de alimentos, dependerá crescentemente da subjugação da agricultura e do trabalho no campo.

Com Marx aprendemos que a existência – histórica – do capitalismo se reveste de justificativa para sua manutenção. Assim, a produção de agrocombustíveis, promovidos para mitigar os efeitos da mudança do clima, causada historicamente pelo processo de industrialização se da’ às custas da expansão de monoculturas industriais de cultivos agrícolas “energéticos” para permitir que justamente a mesma lógica industrial do agronegócio se aprofunde. E, como estamos sentindo aqui no Brasil, mesmo isso seja em pequena escala, no agronegocinho, pois e’ o controle de extensões territoriais que deve ser assegurado.

E a função do pequeno agricultor neste plano ´e fornecer matéria prima ou ser integrado ao sistema pela dependência dos insumos e/ou da tecnologia de processamento (micro-usinas, prensas, etc) que reproduzarn a lógica e o ritmo industrial de processamento. Nesta lógica, o campo cada vez mais se transforma em uma grande fábrica à céu aberto com cada camponês e agricultor submetido e aprisionado à lógica industrial desde a semente; e estas, geneticamente modificadas para garantir que a própria natureza também esteja adequada e (condenada) à co-evolução com

as necessidades definidas pela indústria.

– Qual é a contra-proposta que os setores populares poderiam apresentar?

– E garantir esta nova submissão da agricultura à indústria e do campo ao modo de vida e ao consumo da cidade (dos carros e da lógica de transporte e abastecimento de cidades insustentáveis), mesmo que do mercado interno?

– É enaltecer o trabalho no campo com a nova “vocação” de produzir energia sem questionar para quê, para quem, sob quais forma ?

– Acima de tudo. em que medida ficam de antemão asseguradas as ações políticas assumidas na construção do eixo de resistência até aqui, como a defesa das sementes como patrimônio dos povos das humanidade ?

– Antes de exigir na pauta política participar de programas massivos de produção de energia à partir de não-comestíveis (como se isso fosse uma vantagem moral), cabe nos perguntar: como estão a

recuperação de especies crioulas, os bancos e as feiras de sementes ?

– Como estamos implementando ações efetivas de preservação c recuperação da biodiversidade na luta contra as monoculturas ?

– Como está a presença do agronegócio na nossa mesa – como estamos afirmando em nossas refeições diárias nossa Soberania Alimentar ?

Estas são apenas algumas provocações iniciais para seguirmos refletindo sobre o grave desafio deste momento histórico. A clareza sobre o que este momento representa para os movimentos

sociais, principalmente aqueles que resistem sobre os territórios ao avanço do capital sobre o campo e a expansão das monoculturas, pode ajudar a definir o que estamos realmente buscando defender como soberania energética? Mantendo as premissas e o eixo de resistência acumulado

na defesa da soberania alimentar e atentos a evitar de cair nas contradições deste momento histórico, voltamos à agricultura.

A falacia da agricultura industrial

A economia e a sociedade capitalista são petro-dependentes (George W. Bush chamou seus concidadãos de “viciados em petróleo”) na mesma medida em que até a Revolução Industrial (com a tecnologia da máquina ã carvão) e a descoberta do petróleo no seculo XIX, todas as outras sociedades na história dependeram inteiramente da madeira (e do controle das florestas e destes territórios) como a principal matriz energética.

O petróleo, energia líquida e transportável, permitiu urna mobilidade incomparável e acelerou a velocidade de ação e integração de todas as mercadorias e economias locais ao ritmo e às imposições do mercado mundial. Este processo acelerado de industrialização e urbanização, organizou os espaços urbanos em expansão em função de privilegiar a mobilidade dos indivíduos com o automóvel e todo um estilo de vida que daí decorre (vendido como ideal de “liberdade e autonomia), que surgiu na sociedade norte americana, alimentado e promovido pela indústria automotriz; é o “Americóm way of life” que hoje parece estar ameaçado com a disponibilidade e o custo do petróleo.

Já que queremos ir juntando o conceito de soberania alimentar com a construção da ideia de soberania energética cabe lembrar que também que foi justamente a cultura do automóvel e a ocupação do território com a expansão das autopistas. que no início do século XX na Califórnia, deu origem à invenção e à multiplicação da fast food. A criação da ‘comida rápida’ e de padrão industrial, que ao longo do século passado universalizou a dieta do hambúrguer “Mcdonalds” foi um dos símbolos principais do movimento antiglobalização e do protesto contra a perda da cultura alimentar local de cada país e o domínio das transnacionais do agronegócio. Como já apontou José’ Bové, dirigente da Via Campesina na França em uma ação de ‘desmonte’, de uma lanchonete da cadeia Mcdonalds, comer e’ um ato político: ao menos três vezes ao dia nós temos um momento de decidir aquilo que vamos colocar dentro do nosso corpo e que materializa toda a cadeia de produção e de trabalho que está por trás!

Para a sociedade petro-dependente, do ponto de vista energético, está em questão a viabilidade de reprodução desta economia globolizada que temos hoje e seu transporte de um lado a outro a outro do planeta, segundo uma lógica de assegurar o lucro e o poder das empresas transnacionais que controlam o comércio mundial. Nesta ótica, o desafio de evita: a catástrofe climática, significa também inverter o atual volume de transporte a serviço da produção, circulação e consumo de mercadorias no mercado global – o qual, dependente dos custos dos combustíveis derivados do petróleo, segue em direção à inviabilidade econômica.

Um primeiro passo, por escala e volume do que é transportado, e para gerar impacto nos fluxos de energia e na conversão mais imediata de alternativas descentralizadoras deveria ser a reorganização da produção e do comércio agrícola mundial. Mas a abrangência e o impacto de medidas para incidir nas causas são de natureza essencialmente política e, logo, deveriam integrar um programa muito mais amplo de reconstrução total da sociedade em outras bases.

Ao contrário, o ponto central das ações altamente recomendadas é a redução imediata das emissões de gases de efeito estufa geradas com a queima de combustíveis fósseis, cujo maior responsável (segundo os dados mais consolidados) na emissão de CO2 (apenas, um dos gases que causam o efeito estufa) é o setor de transporte, e nele, a transporte privado individual;

O Mundo tem hoje cerca de 800 milhões de automóveis. Juntos, estes veículos consomem mais de 50% da energia produzida em todo o planeta, o que faz do automóvel individual o primeiro causador do efeito estufa e do aquecimento global.

Segundo a lógica do mercado, a saída nos leva também a soluções individuais, individuais: use ‘biocombustíveis`, compre carros `motor flex’. Desta forma, os consumidores individuais que podem comprar esta mercadoria se veem com a consciência mais leve, e mudam-se os motores – ou o combustível – para não mudar o que realmente importa.

No sentido do recorte do impacto dos transportes quanta às emissões de CO2, as medidas prioritárias em termos de causa e efeito, logicamente, seriam:

– a massificação dos meios de transporte coletivos e públicos (que é muito importante, mas não deixa de ser um arranjo conjuntural), e

– a reorganização drástica do espaço urbano das megalópoles – concebidas até hoje para promover e privilegiar a civilização do automóvel individual.

A tendência da mudança mais urgente seria, consequentemente, para atacar as causas, medidas no sentido de uma des-urbanização, onde cidades menores favoreçam a mobilidade alternativa e não poluente, e o fluxo de pessoas, a produção e o intercâmbio de produtos sejam auto-suficientes e em escala local.

Mas a cifra de “800 milhões de automóveis” tem sido repetido tanto exaustivamente quanto equivocadamente por todo lado. Na verdade o dado original fala somente em “800 milhões de veículos”, que podem ser carros para transporte de passageiros, mas também ônibus e caminhões leves, médios e pesados; em artigo recente o diretor geral da FAO, Jacques Diouf, chama atenção que são carro: e caminhões.

No caso do Brasil, a estimativa oficial de consumo total de combustíveis líquidos e’ de que o setor “transporte” consome 61% do total nacional, enquanto a ‘agropecuária’ consumiria apenas 6%” (só no maquinário agrícola? e os aviões de furnigação? E caminhões de cargas, barcaças, etc?). Este mesmo dado na vizinha Argentina, por exemplo e’ o seguinte: 56% transporte de cargas; 20% agropecuária (tratores, aviões): 14% transporte rodoviário de passageiros: e apenas 6% veículos de transporte individual. Este exemplo mostra que no Brasil este dado não e’ claro, pois não especifica quanto é consumido por caminhões, carros e ônibus. Ora, esta falta de diferenciação e especificação, pode estar ocultando uma reflexão muito importante e talvez ate’ desviando o foco para buscar fatores individuais, impedindo vislumbrar o sistema, para entendê-lo em funcionamento.

Por exemplo, se privilegiamos pensar o sistema e o conjunto de emissões de gases de efeito estufa (não apenas o CO2), temos que considerar o conjunto de energia envolvida em cada uma das etapas da cadeia nos setores da economia. Nesta lógica, o setor de construção (que envolve mineração, produção de brita, escavação de areia. produção de cimento, concreto, vergalhão, alumínio, grades, isolantes térmicos. Com tubulações, fiações, vidro. calefação, bombeamento de água, elevador nos prédios, iluminação, ar, etc.) enfim, por tudo o que faz que as cidades sejam “selva de pedra”, e’ exatamente o setor que mais consome energia no mundo. Inclue se ai o que implica de energia a construção de infraestrutura, tanto de moradia como de saneamento, prédios comerciais, ruas, saneamento, estradas, viadutos, fábricas, portos, etc, etc.

Logo, a demanda de energia envolvida na forma de ocupação espacial, mais elementar da vida nas cidades modernas é a primeira causa de consumo de energia a ser atacada. Pois a demanda é suprida às custas de fontes de energia (e matéria) exógenas, externas geradas em outro lugar e com seus impactos sobre outros territórios, e suas populações, às vezes até outros povos. Além da areia, argila, brita, cimento, concreto, ferro, aço, também a eletricidade que liga a televisão na novela em SP vem da rede nacional, alimentada por Itaipu e outras hidrelétricas, o gás pode estar vindo da Bolívia, etc.

É a demanda industrial de energia que é a causa central do aquecimento global. Esta demanda pode ser medida, ou quantificada em vários setores da economia, onde o “transporte” é apenas um deles ~ segundo os critérios oficiais – e ainda assim fica atrás de setores mais poluidores como a indústria de materiais de construção (mencionada acima) e a criação de animais, por exemplo.

Mas como pensar o “transporte” como um setor isolado? Do ponto de vista da circulação das mercadorias, o transporte/logística é intrínseco a todos os setores, garantindo a integração dos mercados, a expansão dos pontos de venda, o abastecimento constante, competitividade dos atuais monopólios. Basta pensar em todos os longínquos lugares onde sempre se encontra Coca-Cola/Pepsi, salgadinhos Elma Chips, etc. Além disso, imagine-se a energia envolvida na fabricação e no transporte de milhares de embalagens para tanta industrializada e congelada (celulose para papelão, Tetra-Pak, plásticos, PETs, latas de alumínio, etc).

Apesar da ênfase dada ao consumo do automóvel individual (onde há a possibilidade de escolha, ainda que de cada indivíduo) quanto às emissões de gases de efeito estufa que ele produz, talvez seja mais estratégico dar peso, também, ao consumo de combustíveis no setor de transporte rodoviário das cømmødities agrícolas e depois das mercadorias comestíveis já industrializadas, muitas vezes em fretes refrigerados. Isso é importante porque neste caso, não existe escolha individual – o sistema agroalimentar mundial, controlado pelas transnacionais, é que controla toda a cadeia.

Imagine-se o fluxo de caminhões nas estradas brasileiras que levam a soja até os portos de embarque… e dos laticínios de Minas Gerais levados até o Rio Grande do Sul, entre outros. Sem falar nos navios graneleiros movidos à diesel ou nas frutas, hortaliças, flores e carnes congeladas transportadas por avião… Teóricos do sistema agroalimentar criaram o conceito econômico “food miles” (milhas dos alimentos) para calcular quanta energia e’ gasta pan transportar, por avião, por exemplo, frutas, hortaliças e até mesmo flores! De vários lugares do mundo para suprir os mercados do Norte, em relação à energia alimentar (quilos/calorias) que estes fornecem. Podemos também recorrer a este conceito de “milhas dos alimentos” para entender como estão sendo completamente destruturados os os mercados de abastecimento locais imposição do controle por grandes cadeias que manejam a produção (a integração) a industrialização e a circulação global dos alimentos.

Segundo o relatórios da FAO que utiliza uma metologia inovadora, que considera o gasto de energia ao longo de toda a cadeia de produção, as emissões da cadeia de produção industrial de carnes (bovina, suíno e de aves), é responsável por 13% de todas as emissões de gases de efeito estufa. Mais que a média global dos “transportes”. O que interessa destacar é que este calculo inclui a energia computada desde a produção das rações (ou seja, as monoculturas de soja e milho), os fertilizantes nitrogenados, o desmatamento para abertura de pastagens e campos para cultivo de grãos para alimentação animal, a energia empregada no processamento industrial, tratamento de resíduos, transporte, etc. (só o Brasil tem um rebanho bovino de cerca de 200 milhões de animais e o rebanho mundial é de aproximadamente 6 bilhões). O processo de industrialização-urbanização é reconhecidamente o fator que desencadeou o aquecimento global. Hoje é fundamental compreender mais profundamente de que forma a industrialização da augriculturu – a ser aprofundada com os agrooombuflívás – pode estar agravzmdo e radicalizando o problema”.

A segunda e a terceira geração dos agrocombustíveis, assim como a primeira revela que a verdadeira competição é, sempre foi, e seguirá sendo, por terra agriculturável e água. Ou seja, a grande questão é enfrentar o Agronegócio como projeto político e territoriais hegemônico e divulgar junto a sociedade a falácia da agricultora industrial, caracterizando o modelo atual de produção e comércio de alimentos e fibras como um dos principais causadores do aquecimento global.

Na confrontação estrutural ao modelo, é preciso (des)construir o conteúdo ideológico do discurso político, em especial aquele que se apresenta como progressista, que tudo justifica (social e ambientalmente) a fim de promover o “desenvolvimento” e o “crescimento” econômico. Como se imagina que isso possa acontecer dissociado do aprofundamento da acumulação capitalista, na exploração da natureza e do trabalho para a produção ‘e circulação global das commodities? Da perspectiva dos movimentos que lutam pela transformação da sociedade, a tarefa urgente é enfrentar a questão de fundo deste debate: a ideologia desenvolvimentista (que é também urbana, industrial, e tecnológica em todas os seus desdobramentos) e de como essa é intrinsecamente dependente do discurso hegemônico sobre energia.

Diante disso, parece, nosso maior desafio entre os setores populares é que ainda estamos longe da consciência radical que este momento histórico nos impõe, sem condescendências, nos obrigando a abandonar ilusórias saídas nacionalistas (e individualistas) calcadas na ideologia desenvolvimentista que são hoje o maior entrave no esforço efetivo para a construção de um caminho verdadeiramente ecossocialista e internacional.

 

Camila Moreno, Pós-Graduação de Ciências Sociais em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade, Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. 2007.

 

Referencias

Fast Food Nation, Eric Scholess, Editora Pinguin, New York, 2002

Agrocombustíveis, cultivos energéticos e soberania alimentar na America Latina, Elizabeth Bravo, 2007, Expressão Popular/Terra de Direitos.

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Uma resposta to “Agroenergia e Ideologia”

  1. yermandu 2013, fevereiro 13, às 12:30 pm #

    É preciso pensar no por que estamos aqui, não digo filosoficamente, mas históricamente, estamos aqui e agora, tudo o que fizermos alterará o acontecimento futuro, mesmo que isso vibre fracamente amanhã, a onda de descontentamento e consciência da realidade é exponencial, e que portanto cada um que se move num sentido de se integrar a natureza restabelece a ligação da vida com o tempo.
    Quando falamos em política, é toda circunstância que se cabe ao nosso modo de vida, por exemplo, se nascêssemos duzentos anos antes de Colombo, na Amériĸa, certamente viveriamos em uma tribo e a política estaria toda voltada a região local, teriamos pouco ou quase nenhum contatos com povos de outros oceanos. O fato é que hoje vivemos uma situação glocal, ou seja, toda ação local, se dissipa e atinge o globo como um todo em sua forma política. Não vivemos isolados da política, e a política mundial, regida e consolidada por seus concervadores é a do aquecimento global, é incompativel hoje ver o mundo sem o aquecimento global, e qual é o combustível que tem movido a destruição do eco sistema, como um todo, senão o próprio capetalismo.
    O texto nos aponta esse caminho, qual a ideologia por traz dos conceitos de reprodução? Perguntas, questões que provocam nossos pensamentos e reflexões, afinal qual sociedade queremos viver? Será que calar-se, nada fazer e ficar inerte aos acontecimentos do avanço agrotóxico é a melhor saída? Sabemos hoje que vivemos em uma época ‘especial’ na qual nós todos somos os protagonistas de nossa Era.
    Duas palavras chavez para desvendar o sutra, soberania, na qual eu prefiro que tenham sua própria definição, e segurança, prefiro descrever segurança pois afinal, esse também é um de minhas esquils , sabe-se na informática que: não existe sistemas seguros. Todo e qualquer sistema, digital, é susceptível a falhas. Então, como trabalhamos (?) simples, minimizamos os riscos, dificultamos ao máximo o acesso, controlamos quem entra quem saí, isso no mundo dos bits. O que tenho notado aqui é que o “sistema” tem adotado a medida de “Segurança” para que se continue perpetuando os mesmos erros, para que não falte combustível suficientes para manter a engrenagem em funcionamento, dentro do texto veremos que ⊁“o capitalismo não existe sustentabilidade”⊀ vejam, o que o sistema tem feito para que sejamos sustentavéis, e então toda idéia de sustentabilidade passa a ser vendida, como uma mercadoria barata, em busca da defesa da segurança energética, que eles propoẽ.
    Entender o conceito de Soberania Energética é fundamental para entender e se relacionar com a sociedade, eis aqui o desafio, como disputar o desenvolvimento e o dialogo em tempos de “crises” (que não são crises, mas a expansão do capital), ter combustíveis para o funcionamento dos transportes e garantir “Soberania ‘Alimentar’ ” e resistir ao agronegócio?
    Para garantir a demanda de energia gasta, é preciso ter o controle da base territorial por onde se obtém a matéria prima. E nisso nosso pequeno Brasil tem a oferecer de monte, não em razão suficente para todo planeta, como se o Brasil abastecesse todos os mercados.
    A questão hoje encontra-se no fato que os cientistas, e até mesmo a ONU, afirmam: “Estamos vivendo em tempos de mudança climáticas drásticas”, e o que o governo nos tem oferecido são sempre remendos, como a reforma de sua calça jeans para brincar as festas juninas, estamos tapando o sol com a peneira.
    Se continuarmos expandindo o plantio de matéria para os “agrocombustíveis” e com a quantidade de carros e veículos individuais (Para não dizer privado) que nos tem sido impostos e que engolimos, não haverá espaço para eles circularem nas cidades, nem alimentos, logo precisaremos de mais terras para mais plantio, e a alimentação tem ficado de lado.
    Cabe aqui uma provocação, o que temos feito realmente de fato para que possamos perpetuar as vidas, das sementes, do mundo da biodiversidade e dos pobres?
    O que temos feito de fato para sermos a alternativa que eles não querem, como transformar o mundo, sem transformar a idéia base do que é energia.

Falæ

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