Antirracistas é o que somos! Ou porque não aceitamos ideias racistas em pele de bananas!

5 maio

Protagonizada por Neymar Jr e Luciano Hulk, a campanha #somostodosmacacos referenda a animalização, ou pior, a desumanização do povo negro que historicamente busca superar os diversos obstáculos que o racismo institucional ainda nos impõe. Não é possível admitir que essa jogada de marketing seja para o combate ao racismo que ocorre nos estádios da Europa, nem tão pouco fora deles. Ainda mais, se utilizando de uma palavra de protesto dos movimentos sociais – “somos todos” – que sugere a solidariedade e identidade com as lutas e lutadores do povo brasileiro.

O que constatamos neste caso é mais uma das capacidades que a ideologia capitalista tem de se apropriar e tirar do lugar ideias e fatos inadmissíveis, tornando-os aceitáveis, para aumentar os níveis de exploração e alienação. Vejamos. Um conjunto de famosos globais, com várias fotos “selfies” atrás de bananas inundam as redes sociais para corroborar com a ideia sem cabimento que é: afirmar que gente não é gente! Com isso perguntamos: A quem serve esse tipo de autodeclaração? E por que playboys querem sair por aí se dizendo bichos? Que tipo de movimentação é essa que esvazia o conteúdo histórico da luta antirracista?

Em tempos de informação instantânea, é fundamental voltar à História, para aguçar nossa consciência crítica, mesmo que de forma breve, para recuperar as principais questões desse absurdo que aqui denunciamos. O tráfico e a escravização de indígenas, negros e negras da América Latina e África, no período colonial serviram de ensaio para a consolidação da era capitalista em que vivemos até hoje, infelizmente. Desde então, a ciência, a religião e a política hegemônica – para citar alguns dos elementos que são bases para a dominação capitalista – buscam higienizar e segregar a população indígena e negra do processo civilizatório e de desenvolvimento. Utilizando-se destas populações, como base de experimentos, mão de obra, ou, em se tratando de jogadores de futebol, como descreveu Eduardo Galeano, pés de obra.

Assim, não é à toa que há pouco mais de um século o Brasil tenha sido o último país no ocidente a decretar a abolição da escravidão e que povos dos países africanos, já no século XX, ainda estivessem em luta pela libertação da colonização europeia. Até hoje, nós, negras e negros, lutamos para que ocorra a descolonização das mentes. Lutamos pela garantia da nossa cidadania e a garantia dos nossos direitos! A naturalização da dominação via ideologia capitalista sustentou por muito tempo a superioridade do pensamento branco/heterossexual/masculino como o mais qualificado e aceitável. Por isso, a questão racial é uma questão que até hoje, nós, de movimentos sociais, disputamos e disputaremos, pois a igualdade racial é crucial para a estruturação de uma sociedade livre!

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Por fim, desconfiemos ainda mais deste caso que está tão referendado nas telas da Rede Globo, com camiseta e garotos-propaganda. O povo não é bobo e sabemos que a mídia racista, machista e golpista busca construir a alienação através dos seus meios e figuras publicitárias, pois negam e subalternizam o negro na caracterização do povo brasileiro em toda a sua programação e a mulher negra, que é hipersexualizada, serve de fetiche folclórico para “gringo” ver. Comparar gente a macaco é legitimar o encarceramento em série que ocorre no Brasil, onde nós, negros periféricos, somos a maioria! Em que o acesso à justiça é negado ao conjunto da população negra e a criminalização desse povo faz parte do procedimento padrão para se instaurar a segurança pública deste país que, não por acaso, sempre se baseou no genocídio da juventude negra e pobre. Trabalho, educação, cultura e saúde são outras áreas onde estamos à margem, e se há um processo de reparação e ação afirmativa, como as cotas, a elite com consciência colonizada que sempre quer subir na vida se rebela, e preza por defender a meritocracia ao invés da democratização das oportunidades.

Por tudo isso, não existe simpatia ou bom humor que nos faça aceitar essa manobra racista de assumir que no Brasil (sede da Copa, não é?) só existam macacos. É muito oportunista e acima de tudo perigoso ceder ou se acomodar, pois esta campanha reforça o estereótipo que ganha uma proporção mundial. A igualdade e a liberdade se conquistam. Esse será o significado dos nossos protestos e ações, ao invés de assumir o lado do opressor. Lutaremos de punhos cerrados, unidos fortemente por justiça para mudar este jogo: as pretas e pretos no poder!

Por Suzany Ludimila, militante do Levante Popular da Juventude da Paraíba

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