Arquivo | Literatura RSS feed for this section

Admirável Direito Novo

18 mar

Admirável Direito Novo.

Haveria um paralelo entre o vazio do Direito e Política contemporâneos e a sociedade de condicionamento moral e social imaginada por Aldous Huxley? 

Por André Felipe Portugal*

“Oh, maravilha! Como há aqui seres encantadores! Como é bela a humanidade! Oh, admirável mundo novo!” [1]

Tomado pelo entusiasmo, o selvagem John, personagem de Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, descrevia o que esperava da sociedade fordista que, logo mais, viria a conhecer.

Na chegada à terra prometida, John se deparou com o condicionamento moral e social a que eram submetidos aqueles cidadãos. Não havia crenças, nem laços familiares. Também não havia livros. Não se lhes era permitido pensar (não que alguém o desejasse). O que havia era a explícita padronização (extinção) do sujeito, transformado em número e destinado unicamente a auxiliar o governo na manutenção da estabilidade social.

Não poderia ser diferente, aliás. Na medida em que, como em Gattaca, as pessoas eram fabricadas por procedimentos artificiais, a seleção social era previamente determinada. De um lado, fabricavam-se os Alfas; de outro, os defeituosos (Ípsilons), mas também relevantes na manutenção daquele status quo. Do mesmo modo, o autoritarismo estatal, quando influenciava o inconsciente dos cidadãos, seja através de ações explícitas, como na proibição de livros perigosos (Shakespeare, por exemplo), seja através de procedimentos implícitos, como a técnica da hipnopedia, pela qual lhes eram constantemente impregnadas frases prontas e distribuídas diariamente largas quantias de soma [2], lograva êxito em sua tarefa de banir o surgimento de qualquer pensamento crítico.

Se “não há estabilidade social sem estabilidade individual”; “setenta e duas mil repetições fazem uma verdade”; “quando o indivíduo sente, a comunidade treme”; “civilização é esterilização” e “um grama de soma vale mais do que o mal que se proclama” [3], a democracia, em seu sentido correto, evidentemente não existe.

Tempos depois da desilusão, porquanto se tratava de uma sociedade explicitamente padronizada, desprovida de pensamento e de qualquer senso da realidade (optava por abandoná-la, em troca do prazer), o selvagem “despertou novamente para a realidade exterior, olhou em torno de si, reconheceu o que estava vendo – reconheceu, com uma desalentadora sensação de horror e repugnância, o delírio incessantemente renovado de seus dias e suas noites, o pesadelo da pululante mesmice indistinguível. (…) Estacou, circunvagou os olhos aturdidos e horrorizados pela multidão vestida de cáqui no meio da qual se achava, com sua cabeça sobressaindo acima dela. ‘Como há aqui seres encantadores!’ As palavras cantantes vergastaram-no com seu sarcasmo. ‘Como é bela a humanidade! Oh! Admirável mundo novo…!’”

A despeito de a obra de Huxley ter sido escrita em 1932, sua atualidade é manifesta. Deste modo, parece interessante tentar, de modo fictício, analisar qual seria a reação de John, o selvagem, ao pisar na sociedade atual, mormente a brasileira.

Com efeito, nosso Admirável Mundo Novo, de modo algum adequa-se às expectativas que levaram o personagem à comunidade fordista. Vejamos.

Ainda que inexista a expressa censura a obras de conteúdo perigoso, não há como negar a doutrinação implícita das massas. Como no fordismo, busca-se condicionar as pessoas a aceitarem e se sentirem felizes com o destino ao qual estão inexoravelmente vinculadas, principalmente em decorrência das condições sociais.

Com isto, é atingida a mesma situação de ausência de pensamento crítico e senso de realidade. As frases prontas, principalmente nas searas política e jurídica, na medida em que adentram o inconsciente da população, tornam-se obstáculos a qualquer manifestação que possa abalar o establishment. Chega-se a um caminho semelhante à novilíngua, de Orwell [4], caracterizada pela redução quantitativa da linguagem, pelo Grande Irmão, com vistas à redução das condições de possibilidade de pensamento dos cidadãos. Neste caso, é verdade, o procedimento ocorre de modo não tão expresso.

Não existindo vontade de pensar (algo semelhante à síndrome do intelecto preguiçoso, de que fala Saramago [5]), opta-se por métodos mais fáceis e convenientes de apreensão de informações. E, como se ressaltou, o Direito não se vê livre disto. Pelo contrário, tem sido cada vez mais notória a influência deste imaginário no âmbito jurídico, cada vez mais visto pelos estudantes exclusivamente por seu aspecto pragmático. Ao invés de estudos aprofundados a partir de obras de fato teóricas, opta-se pelo caminho menos complexo, encontrado naquelas cuja leitura não exige qualquer reflexão crítica. Neste sentido, faça-se alguma justiça aos alunos: o sistema lhes exige (apenas) isso.

O Direito, como a política, deve ser visto como instrumento de transformação da realidade social. Se, no entanto, ambos se veem embalados por esta onda de ausência de pensamento, torna-se difícil superar a manipulação, tanto mais em um sistema no qual a exclusão é o pressuposto de sua eficiência. Assim, “bandido bom” sempre será “bandido morto”, o Estado sempre será um mal, direitos fundamentais serão garantidos somente “para quem os merece” e os juízes sempre decidirão “conforme sua consciência”. Processo para quê, se “há casos em que a sentença já está escrita antes do crime”? [6].

Como em Huxley (e Orwell), a democracia sucumbe. O ser humano não é visto como tal, mas como número. Como em Hannah Arendt, o mal é banalizado [6]. Como em Saramago, a cegueira branca toma conta da sociedade, as pessoas perdem os olhos e não mais veem uns aos outros [7].

Diante de tais constatações, John, ironicamente, afirmaria: “Oh, maravilha! Como há aqui seres encantadores! Como é bela a humanidade! Oh, admirável mundo novo!”.

E se perguntaria, logo após: quando é que tornaremos a ter olhos?

Xingu SA

16 out

Xingu SA

Ouvem-se muitas histórias de regiões inteiras do mundo atrasadas por falta de recurso financeiro. Cria-se uma série de programas sociais, supostamente para a classe rica ajudar a classe pobre. É antiga a questão mundial entre o Norte e o Sul. E sempre se apresenta o dinheiro como a solução definitiva de todos os problemas, ainda que, por trás dele, haja intenções inconfessas.

Mas é interessante! Aqui na Amazônia, há situações em que ocorre o contrário. Indígenas estão sendo estraçalhados por ‘excesso’ de dinheiro. As fontes podem secar ou não da noite para o dia a bel prazer da Norte Energia, colocada como a dona de Belo Monte, e do governo. Os nativos não têm o controle dos cifrões. E uma cidade inteira está em agonia, impactada pelo volume financeiro de Belo Monte advindo da mercantilização do Xingu.

Esse é um elemento curioso! Já não é mais suficiente dizer que o erro está no fato de nossa riqueza ir embora em forma de remessas ao capital imperialista, materializado em transnacionais privadas ou estatais: Eletrobrás, Eletronorte, Chesf, Neoenergia, Vale, Cemig, os gigantes donos de Belo Monte. Pois os vinténs que ficam, controlados por uma estrutura política totalmente viciada, não se traduzem em políticas públicos a benefício do povo e da classe trabalhadora.

Essa estrutura de organização capitalista de sociedade, cujo motor é a exploração, gera pessoas-monstros miseravelmente ricas; são tão pobres, mas tão pobres de valores humanitários, que fazem tudo pelo dinheiro, e se comportam como macaco em casa de louça (sem querer ofendê-lo), quebrando tudo pela força bruta do poder.

Vitória do Xingu, município-sede de Belo Monte, é um caso típico, e virou um canteiro de obras! A cidade, que tem cerca de sete mil habitantes e um ISS – Imposto Sobre Serviços – próximo de dez milhões/mês, está com as ruas, todas, reviradas. A poeira toma conta nesse verão. Mesmo que se jogue água, tudo seca rapidamente com o calor intenso, trazendo complicações respiratórias, em especial para idosos e crianças. E não é fácil encontrar uma ficha para consulta médica.

Antes o sofrimento em Vitória fora o inverno. O lamaçal se agravara com a remoção do calçamento das ruas – ainda bom -, e da terra arenosa para colocação de argila, própria para receber o asfalto, que não veio até hoje. A promessa é de asfaltamento de toda a cidade. Por enquanto tudo são buracos e terra nua.

Uma conhecida nossa, que se mudara de São Paulo para Vitória, em março de 2013, contara o ‘seu’ caso, ao mesmo tempo exótico e dramático. Ela passava pela rua, desviando-se aqui e ali de um buraco, de uma lama; ia ao bairro Santa Clara, onde sua casa estava em construção. De repente, desequilibrara-se, ficara atolada no meio da rua, até o joelho. Jamais pensara que ali fosse assim tão fundo.

O jeito fora pedir socorro. Um senhor, que passava numa trilha firme, na rua próxima, ouviu os seus gritos. Ele ia de bicicleta. Ficara em dúvida, seguira adiante, mas logo resolvera voltar, vendo-a naquele estado lastimável. Tirara, então, o sapato, que estava limpinho, e se metera na lama, arrastando a mulher do atoleiro.

A parte central da cidade tem verdadeiras crateras. Estão furando tudo, e colocando manilhas enormes para rede pluvial. A rede de abastecimento de água, também em construção, foi testada, os canos não suportaram a pressão e se romperam, e os serviços agora estão parados. Os canos de rede de esgoto são mais finos, e há dúvida se suportarão. Não se sabe, também, se o esgoto será tratado, conforme promessa, ou apenas lançado ‘in natura’ no rio. O sal dos dejetos humanos corrói as turbinas da barragem, e lhe diminui a vida útil, mas Vitória está abaixo do muro de Belo Monte e, isso, deixa os construtores da barragem numa posição tranqüila.

O barulho das máquinas pesadas é ensurdecedor. Bem à frente da casa onde Pedro, também conhecido, esteve hospedado, uma retro-escavadeira na rua fura um rasgão. Ele disse que foi obrigado a passar da sala para a cozinha, nos fundos. Não resolveu! Ao barulho, juntam-se as batidas fortes no chão seco, fazendo o computador tremer em cima da mesa. Pior, disse, foi o rolo logo após, compactando; o vidro da janela tremia todo, parecia que a casa viria a baixo.

A intensidade da ‘zuada’ constante dói os miolos. Quando a máquina dá ré, solta apitos finos e estridentes. A retro-escavadeira, com aquela munheca grande, e forte, fuça o chão, dando aqueles arrancos, com seus pés fincados em área firme e, enchendo a pá de terra, despeja tudo de uma só vez na caçamba do caminhão, cujo impacto provoca uma espécie de estrondo. A poeira sobe e espalha-se, alta e densa, encobrindo a visão.

Nas ruas vicinais, todas mexidas e remexidas, além da poeira no verão ou da lama no inverso, o compactador, um grande rolo que passa algumas dezenas de vezes no mesmo local, vem causando rachaduras nas casas. Marinalva conta que já se pode enfiar o dedo nos buracos da parede de sua morada.

Funcionários da empresa terceirizada da Norte Energia fotografaram tudo antes do início das intervenções, há mais de um ano, supostamente para comprobação de possíveis danos, e reparos ou indenização. Mas agora, quando alguém reclama, eles apenas dizem que foi a outra empresa. Algumas famílias, já impacientes, estão consertando por conta própria.

Uma jovem questionara a razão pela qual a intervenção está sendo feita na cidade toda ao mesmo tempo. ‘Não seria melhor terminar um bairro, e, depois, começar  outro’? Mas a empresa, entre o desdém e a displicência, apenas disse: ‘fizemos assim em outra cidade, mexendo em tudo de uma só vez, e deu certo’. A jovem ficara em silêncio. Muitos se calam por completo, pois percebem o descaso! Por dentro, porém, ela se contorcia.

Parece, de fato, não haver um planejamento do ponto de vista técnico. Na barragem é tudo calculado, tim-tim por tim-tim, a tempo e a hora, e, ali, é como um experimento. Vitória é cobaia! Muitos serviços feitos, e desfeitos com as chuvas do inverno, já foram refeitos mais de uma vez. Muita terra foi carreada para o igarapé Facão, um crime ambiental. Existem áreas de lazer, umas muito próximas a outras, com equipamentos exóticos que, provavelmente, jamais serão usados por gente do povo.

A empresa parece não se importar com isso. É preciso entender a sua lógica. Por um lado ela faz a obra apressadamente, pois, assim, terá mais dinheiro em menos tempo. Ainda mais que ela tem frentes de serviço em diversas regiões do Brasil.  Por outro lado, refazer serviço – o que seria um desperdício – e demorar com a obra – o que seria prolongar o transtorno – não é problema para a empresa; ao contrário, é até uma forma de mostrar um grande volume de trabalho e justificar a dinheirama gasta. Quanto às notas, frias ou quentes, é só uma questão de formalidade.

Diversos outros problemas vão aparecendo junto desse caos chamado progresso. Uma cidade antes pacata já não consegue ter paz. Duzentos reais que Clotilde levara na carteira para possíveis gastos em sua estadia em Vitória, e sua viagem de volta a Altamira, escafederam-se. Suas colegas desconfiam de um rapaz; elas deram razão de sobra para a desconfiança, mas não têm uma prova material. O fato é que as famílias já não têm mais o sossego de outrora, dormindo com janela e porta abertas. Quando saem, trancam tudo.

Cada espaço público já construído ou em construção na cidade tem três vigias, que revezam. Somam, ao todo, cerca de 200 vigias contratados numa cidade tão pequena. Chico pensa que o Prefeito se aproveita desse clima de insegurança para garantir emprego, cumprindo, assim, uma de suas promessas de campanha. E perpetuando-se no poder.

Lena, que alimenta um verdadeiro ódio contra a barragem, quase um fanatismo, sofre náuseas quando o dever lhe impõe o uso do tele-centro (público). Somente ali a internet tem sinal bom.

Sua raiva tem um viés familiar: o irmão dela perdeu a vista na barragem. Ele trabalhara lá. Num dia, estava no ônibus, e o pó de brita da estrada lhe penetrara a vista. Como ardia muito, procurara o médico da Norte Energia, que lhe receitara um colírio, e lhe dissera que poderia continuar trabalhando. Isso foi a desgraça dele! Passados quarenta dias, com o olho doendo, resolvera voltar ao médico, que o encaminhara para outro em Altamira e constatara uma úlcera dentro do olho esquerdo. Sua vista estava perdida.

Seu irmão fora afastado do serviço, e recebe uma espécie de pensão da empresa. A solução é o transplante do olho, mas fica muito caro, e a Norte Energia não assume.

O espaço do tele-centro, em Vitória, é todo controlado pela Norte Energia. À frente do prédio está escrito em letras grandes: ‘Balcão de informações – usina hidrelétrica Belo Monte’. A porta fica fechada. Abrindo-a, a pessoa dá de cara com um segurança. Do lado esquerdo, acha-se uma moça com ar de secretária atrás de um computador.  O estômago de Lena revira por dentro cada vez que vai lá. Mas não tem outra opção.

Sempre mais a Norte Energia faz de suas obrigações legais um instrumento de dominação dos gestores públicos – através de uma e outra obra – e das famílias – através do emprego, ainda que precário e temporário.

As autoridades e a Norte Energia fazem gracinha. As festas se multiplicaram. Distribuíram-se Tabletes e Notebooks para estudantes e professores. Cada vereador ganhou uma Hilux, com fornecimento de mil litros de combustível/mês.  A Prefeitura deu um desconto no ISS. Essas mordomias evidenciam que o Município nada em dinheiro, como se tivesse ganho na loteria. Essa dinheirama, porém, não tem significado melhora na qualidade de vida do povo.

A falta de recursos deixa muita gente à míngua no Brasil e no mundo. Altamira, situada no remanso do futuro lago de Belo Monte, reclama, com razão, do não cumprimento de condicionantes, em especial as estruturantes. Vitória do Xingu, ao contrário, tem um ‘excesso’ de recursos, que redunda em obras, mas que não se materializam em benefício real à população.

Aqui há uma verdade escancarada: a evolução de um povo não é uma questão de dinheiro e, muito menos, de obras feitas a deus dará, por formalidade.

A situação das populações ribeirinhas ainda é pior. Boa parte das casas são palafitas, às margens dos igarapés Gelo e Facão, somando quase três centenas de famílias. Corre boato de que serão todas desalojadas para construção de cais. Uma empresa terceirizada passou, cadastrou os moradores, mediu tudo, mas não conversou nem fez reunião com ninguém.

O boato da realocação divide as pessoas, e as deixa inseguras. Algumas ficam seduzidas com o sonho de uma nova casa, e com a cidade linda, rodeada pelo cais. Outras ficam vivamente chateadas, pois gostam da vida ali, ainda que precária.

O pior de tudo, porém, é a falta de informação. Uma arrogância, de quem pensa que o ‘técnico’ é que entende de obras, e que o povo não tem nada a contribuir. Enquanto tudo é boato, a vida fica parada, não se faz um puxado, não se constrói uma varanda, não se coloca uma pintura nova… O futuro é incerto!

Dona Graça mora à beira do Facão. Enquanto lava a roupa, num sábado de manhã, dentro do igarapé, com água até o joelho, vai contando a sua história. Foi pescadora, hoje já se aposentou por idade. Seu marido ainda exerce a profissão. Ela afirma com ar indignado:

‘A empresa diz que a barragem não interfere na vida do pescador. Ela não reconhece ninguém abaixo do muro. Mas é claro que interfere! O peixe diminuiu! A canoa vinha até aqui – apontando com o dedo. Agora é o que estas vendo. A terra da rua escavada desceu tudo para o rio. O igarapé virou um filete de água’.

Carla, que fora visitá-la, e ouvia a sua história, olhou para um lado, para outro, era mesmo tudo verdade. Perguntou-lhe se poderia tirar uma foto. Carla pensava que era importante registrar o que ela relatava. Aquele filete de água correndo, ela com a bacia cheia de roupa, as marcas da enxurrada da rua e a areia, cobrindo tudo.

‘Pode tirar foto sim! O que falei é tudo provado. O pessoal aqui tomava até banho no igarapé. Agora é só terra. Se a empresa quer construir cais aqui, tem que olhar o nosso lado. Aqui a gente está instalada, tem morada. Sair sem rumo não tem jeito’.

Dona Graça, na sua simplicidade e idade bem avançada, é uma mulher decidida.

Carla tirou a máquina da sacola, bateu a foto, e ainda a ouviu por uns instantes. Depois se despediu, apertando-lhe a mão. Ela abriu um sorriso, e disse:

– Volte depois!

– Vou voltar sim, em meados de outubro.

Enquanto ia passando pela areia, rumo à rua, já olhava o calendário. Pois a organização do povo somente caminha dentro de um processo. No mínimo, pensava Carla, precisamos buscar todas as informações e repassá-las às famílias. Informação também é poder.

Não é que Carla se admirasse do que as pessoas enxergam e sentem em Vitória. Apenas fica indignada, com a confirmação de que o desrespeito aos atingidos não é um caso isolado. Há um padrão de agressão aos direitos humanos, já reconhecido mas ainda não assumido pelo Estado brasileiro.

As mesmas promessas mirabolantes em Altamira também ocorrem ali, em Vitória do Xingu. Mas o certo é que tanto o descumprimento das condicionantes em Altamira quanto o ‘cumprimento’ em Vitória não têm incidido na melhora da qualidade de vida do povo. Pode ser mesmo que Vitória fique linda, como costumam dizer, mas com uma população sem garantia efetiva das políticas públicas elementares. Embelezam-se artificialmente as coisas, mas as pessoas ficam de lado.

Mas essa gente simples, em seus casebres e palafitas, não perde o humor. Com tantos buracos na cidade, estão apelidando o Prefeito de tatu de bigode. Não é fácil consumir 10 milhões/mês. E a questão é que esse dinheiro vai aumentar. Quando da sua operação, a partir do início de 2015 – se a barragem realmente seguir em frente -, a maior parte dos royalties de Belo Monte vai ficar na Prefeitura de Vitória. Não é sem razão que uma vaga no legislativo local, e no executivo, é disputada quase a tapa.

Belo Monte é um crime, cujas obras se iniciaram com uma licença parcial e com uma prepotência arrogante, numa ditadura econômica cacifada com dinheiro público pelo governo federal.

O mau exemplo se espalha como rastilho de pólvora. É de se prever o aumento significativo da corrupção em municípios, como Vitória, onde os gestores públicos terão que inventar formas para gastar todo o dinheiro. E não faltará criatividade! Ainda que as campanhas eleitorais acaloradas e as administrações quentes passem pelas notas frias turbinadas na energia do Xingu SA.

 

Author:

Sequestro da linguagem

1 maio

Seqüestro da linguagem

Primeiro disseram que não haveria mais guerrilhas

Acreditei e, com as botas, abandonei sonhos revolucionários.

Em seguida, disseram que terminara a luta armada.

Tornei-me pois violento pacifista.

Depois, disseram que a esquerda falira,

E fechei os olhos ao olhar dos pobres.

Enfim, disseram que o socialismo morrera.

E que uma palavra basta: democracia.

Então, nasceu em mim a liberdade de ser burguês.

 Frei Beto

Nota

Caracóis do Futuro

6 fev

caracois do rumo

Socialismo e Comunismo por Marta Harnecker

17 dez

As revoluções sociais não são feiras pelos indivíduos, pelos “grandes personagens”, por mais brilhantes ou heroicos que sejam. As revoluções sociais são feitas pelas massas populares. Sem a participação das grandes massas não há revolução. É por isso que uma das tarefas mais urgentes neste momento é que os trabalhadores se eduquem, elevem o seu nível de consciência, se capacitem para responder às suas responsabilidades.

harneckeruribe01

Livro em PDF da escritora Marta Harnecker em parceria com Gabriela Uribe

Baixæ Socialismo e Comunismo – Harnecker

Pensadores desejavam uma sociedade mais justa, mas não podiam aperceber-se, nesse momento histórico, qual era a classe social que ia libertar o povo de todos os males produzidos pelo capitalismo. Não levaram em conta em seus modelos de sociedade a resistência que as classes dominantes podiam opôr. Tão pouco tinham uma idéia correta do papel que tem o Estado numa sociedade de classes. Não pensaram portanto que o aparelho de Estado burguês, a serviço das classes dominantes, ia ser usado por estas classes para se opôr à implantação de uma sociedade governada pela sua própria base.

Liberdade em Software Livre

12 dez

Usem apenas software livre.

Respeite sua liberdade e comunidade.

gnu-type

From english Free Software é traduzido no Brasil como Software Livre. Esse livre de free não significa cerveja grátis, mas sim de livre de privativo, privar a liberdade das pessoas. Devemos não confundir proprietário com privativo, de privacidade, privar, restringir.

Antes de nos aprofundar queremos abrir um parênteses, e definir que um programa (ou software, é gerado através de um código que chamamos código fonte/source code que nada mais é que uma receita para o programa, por exemplo faça isso, some aquilo, um botão aqui colorido que quando apertado exibe uma mensagem).

O Software Livre dá poderes às pessoas para se libertar, com programas que não lhe privam a liberdade, assim as pessoas podem mudar com o código.

Existem quatro etapas para que se considere um programa livre:

  • Liberdade 0 – A liberdade de executar o programa, para qualquer propósito.
  • Liberdade 1 – A liberdade de estudar como o programa funciona, e chance para modificar suas necessidades. Para tanto, acesso ao código-fonte é um pré-requisito.
  • Liberdade 2 – A liberdade de redistribuir cópias de modo que você possa ajudar ao próximo.
  • Liberdade 3 – A liberdade de distribuir cópias de versões modificadas a outros. Desta forma, você pode contribuir para a comunidade a chance de beneficiar de suas mudanças. Para tanto, acesso ao código-fonte é um pré-requisito.

Se eu programo códigos com essa liberdade, estou respeitando os usuários e comunidades, e isso inclui os negócios também.

A liberdade 1, estudar o código, não é uma questão técnica. É uma questão política. Para as pessoas se libertar, elas tem que desenvolver programas. E desenvolver programas não é apenas programar ou codificar códigos, é muito além disso, é usar o programa desenvolvido livremente, é dar sugestões, enviar traduções para seu idioma local, relatar erros, muitas tarefas se envolvem no desenvolvimento de programas e todos podem contribuir.

Exatamente o contrário de Software livre, é o ‘software proprietário’ que não contribuem e atrai os usuários para ter poderes sobre ele. Eles fazem isso de diversas maneiras como rastreá-los e monitora-los de forma perniciosa.  O grande ouro do usuário de softwares é ser livre.

A liberdade 2, é ajudar os outros, neste dilema você pode mudar os programas e enviar aos outros, ou ajudar a instalar. Não ter amigos é isso que faz o desenvolvimento privado. A liberdade 2 é uma questão central, e é dependente da liberdade 0, e isso o leva a ter controle sobre o computar, que é o objetivo de um usuário de softwares.

Na liberdade 1 (L1), se modificamos inteiro o software, então você não tem a a L1. Existem softwares maliciosos, os malwares, que informam mensagens sobre o computador e o usuário, e assim “eles” apostam o futuro no Micrøsoft Windøws é um minimalware com suas escancaradas backdoors, (backdoor são portas que mal configuradas abrem o acesso ao computador/maquina). Nós já sabemos os principais aplicativos da Adobe Flash Player, iPhone, iMac da Apple, por que as pessoas não podem escolher, elas no caso do Flash apenas os fabricados pela Adobe, é que são suportados, na Apple você não tem escolha só pode usar um repositório de programas, e todos eles são pagos e isso não te traz liberdade.

Os malwares mais conhecidos hoje são o Adobe Flash Player, Angy Birds, sim esse joguinho informa a localização geográfica de onde você está. O playstation 3, a Amazon, a mais conhecida, e seu aparelho Kindle, eles te rastreiam e mapeiam o que você usa ou assiste, isso é terrível. Poderiamos chamar o Kindle de “Virtual Book Burning” (em tradução literal: Livro virtual queimante).

Esse é o modo de jogar “trust me“: “Eu sou uma grande Companhia, com muitos empregados, e milhões na conta, por isso você tem que confiar em mim”

A L1 traz a organização e controle conjunto, onde a comunidade, você e o desenvolvedor podem se compartilhar nas informações, e nós fazermos juntos como nós queremos “as we wish”.

A Liberdade 3 (L3) é o direito de mudar, de programar e distribuir nossos softwares.

As quatro Liberdades dão democracia para participar na decisão dos programas, são essas 4 liberdades para controlar o computador.

As pessoas precisam rejeitar o Software proprietário, para que possam viver livres.

Em 1983 eu comecei a criar um sistema para que as pessoas pudessem usar os computadores, e compartilhar seus programas. Mas faltava um programa fundamental que controlasse todos programas, gerencia-se a memória, detectasse os hardwares, era o kernel, o cerne do computador, e nessa época todos, todos, os sistemas operacionais eram pagos, e a peça fundamental o kernel, eram todos proprietários. Recebi em 1984 dinheiro para poder investir, e contratei pessoas na área que tinham entendido o projeto e começamos a criar o kernel para então termos um sistema operacional completo. Isso também ajudava essas pessoas a escapar do software proprietários e elas reconheciam essa injustiça cometido pela privativação (difere-se as palavras privativo de privacidade).

Entidades como Bush, Obama, as pessoas que eles querem salvar, as instituições financeiras, não querem nos ajudar, e eu não suponho, nem posso perguntar por quê eles não querem a liberdade.

Mas você pode encontrar pessoas que podem e querem ajudar. A palavra gnu é uma piada, por que ela também significa que é um animal preto, e por isso escolhemos o mascote, gnu significa “Gnu is not unix” ou “Gnu não é unix” é um acrônimo recursivo.

O BSD é um sistema que existia em 1983 (ver em http://www.bsd.org/ e Wikipedia BSD) e era proprietário, mas algumas peças eram livres, e em 1985 pedi para separar o que era livre do que não era livre, e começamos a alterar essas partes tornando-as software livre.

Neste ano já tinhamos tudo, menos o kernel, para que então tivessemos um sistema operacional completo.

E começamos a desenvolver o kernel Hurd (informações sobre o hurd) mas levou muitos anos para desenvolver e em 1992 o Linus Torvalds liberou oficialmente o Kernel Linux. O Linux é então o kernel, o cerne do sistema operacional, e que para nossa felicidade ele usava a maioria dos softwares gnu e bsd. Isso tornava a união do kernel linux e o sistema gnu altamente compatível, e então juntamos as peças Gnu e  o kernel Linux.

A partir daí comeram a desenvolver em conjunto e cada um desenvolvendo seu Sistema Operacional. E então as pessoas começaram a dizer o termo GNU/Linux por isso que sem o GNU o Linux não está completo, não irá funcionar, pois as peças mais básicas que fazem rodar o kernel está dentro do sistema GNU. Se usarmos somente o termo GNU nos referimos apenas as ferramentas e podemos hoje apesar de instável dizer GNU Hurd. Mas Linux apenas se refere apenas ao kernel, o termo correto portanto é GNU/Linux.

A computação é uma nova área da vida humana nos últimos 30 anos, as pessoas precisam usar programas, e elas estão começando a usar programas proprietários privados, e não vão conhecer técnicas para se libertar. Identificar esses 4 direitos no início é um bom modo de usar o computador.

A questão de dizer apenas Linux, ao invés de dizer GNU/Linux, é que lega a ideia que o Torvalds fez o sistema operacional completo, e então não vão lembrar de nós do que fizemos e defendemos pelos direitos humanos sobre sistemas de informação. Eles usam linux e não sabem do projeto Gnu, mas nós usamos o gnu, vamos muito mais defendemos um movimento político de libertação.

Em 1998 as pessoas de outro lado iniciarão o projeto Open Source (Código Aberto) que pregava que retirasse dos nossos meios de vida, as condições ética do movimento, para poder ajudar a comunidade. O Opensource não traz a questão da liberdade e livre. Esses termos Aberto soa diferente de Livre, embora o termo Free soa como grátis, o que não é verdade, por que você pode vender um software livre, desde que acompanhe o código-fonte, e que ele continue tendo as 4 liberdades. Já o código-aberto não traz a idéia de liberdade e perdemos parte da ética do movimento, além de que os que propuseram o caminho do código aberto, pretendiam trabalhar apenas uma parte do software livre, e mixar com uma parte adicional proprietária.

No meio empresarial usar o termo “software livre” parecia um idealismo que não estava sendo aceita no mercado, então o termo “open source” abriu esse caminho. Hoje “Free Software” e “Código Aberto” são movimentos separados, e eles podem trabalhar juntos em alguns projetos. Código aberto é uma metodologia de desenvolvimento, software livre é um movimento social, para o open source, software não-livre é uma solução sub-ótima, para o movimento software livre, software não-livre é um problema social e software livre é a solução.

As pessoas precisam pensar na liberdade como um valor e os programas proprietários irão restringir nossa liberdade.

Hoje existem sistemas inteiramente livres como o Ututo e gNewSense. E também sistemas que são parcialmente livres como o Parabola ou Dragora. Mas essas distribuições não são populares!

Há 5 anos atras Linus Torvalds começou a incluir trechos de código não livre no kernel e a Free Software Foundation (FSF) teve que atuar e retirar essas peças que não deixava o Linux livre, e então o próprio Torvalds desenvolveu um algorítimo que chamamos de Linux-Livre, mas esse é um tratamento que temos que estar sempre fazendo no código.

Então temos que agir em forma de criar uma comunidade realmente livre, não é uma tarefa fácil, mas que tem que ser feita, seja um ativista da liberdade, entregue adesivos, cds, camisetas, fale sobre o software livre, mostre a eles o que podemos fazer. Organize um protesto porque usar Programas Proprietários é injusto, e isso é uma ótima forma de ajudar as pessoas, e sua educação.

O tempo é valioso e temos que lutar pela liberdade?

Eles não valorizam uma vida livre, mas liberdade requer sacrifícios.

Precisamos criar “Quilombos Digitais” para nos livrar de nossa escravidão privativa! E atacarmos de forma a prejudicar o software proprietário.

Missão Social: Educação.

Educar boas pessoas em uma sociedade livre, deveria usar apenas programas livres, e nunca proprietários porque tornas as pessoas dependentes e privadas de sua liberdade. Educar com bons programas, se usar softwares proprietários as crianças irão perguntar, como se faz isso? E então você irá dizer não posso dizer porque isso é um segredo. Se isso é um programa livre, o professor pode dizer como faz, e mostrar o código, ir ainda mais, ajudar a entender o código, ensinar e aprender com elas.

Você deve compartilhar seus programas junto com o fonte, entre seus amigos, colegas de classes, entre professores.

Se você aqui é um professor, então você tem dever de ajudar mais as pessoas, a dizer não onde não vai o software livre.

“Eu não quero conversar com um amigo que não compartilha.”

Nós podemos lutar contra o Big Brother Boss é justo, é por justiça que devemos fazer isso, porque é a razão de existir a privatividade.

Nós devemos usar apenas software livre.

Usar software livre não é um mar de rosas, exige sacrifícios, um deles por exemplo é não poder ver todos os videos do youtube, por que eles (o youtube) e a adobe (fabricante do mais usado Flash Player) ficam nos sacaneando, e cada vez que conseguimos corrigir e executa-los perfeitamente então eles lançam a versão 7, 8, 9 … que torna as outras incompatíveis, e ai lançam a versão 11 e por ai vai … o que temos que fazer é nos unir e criar uma situação que nos conforte e confrontar com ‘eles’ junte-se a nós.

O tempo de lutar pela liberdade é agora.

Links uteis e referencias para esse texto:

gnu.org

fsf.org

www.defectivebydesign.org

www.linuxfoundation.org

www.vivaolinux.com.br

http://distrowatch.com/

https://www.gnu.org/distros/free-distros.html

http://www.fsfla.org/

http://softwarelivre.org

http://libreplanet.org/

http://br.windows7sins.org/

Este texto foi escrito com base na palestra de Richard Stallman em Sorocaba na Ufscar, algumas coisas foi ele realmente quem disse, outras foram a forma como entendi, e outras como eu entendo, portanto esse artigo não é uma opinião apenas dele ou minha.

Pão e Diversões

9 nov

Le Libertaire

Pão e Diversão

“Nasci sobre esta terra; exijo a admissao em todos os trabalhos que nela se exercem, a garantia de usufruir do fruto de minha labuta; exijo o adiantamento dos instrumentos necessários para exercer esse trabalho e da subsistência em compensação ao direito de roubo que a simples natureza me deu” (Charles Fourier, Associação doméstica e agrícola, 1822).

Aí está perfeitamente esquematizada a solução econômica, entretanto, ela está longe de esgotar o problema.
“Sendo o objetivo conduzir inicialmente ao luxo … preciso que a educação conduza ao trabalho produtivo; ela só pode conseguir isso fazendo desaparecer uma tarefa bem vergonhosa para a civilização, e que não se encontra entre os selvagens: é a grosseria e a rudeza das classes inferiores, a duplicidade de linguagem e de modos, Esse vício pode ser necessário entre nós, em que o povo, esmagado por privações, sentiria muito vivamente sua miséria se fosse educado c culto; mas, no estado societário em que o povo gozará de um mínimo, superior ao destino de nossos bons burgueses, não será necessário embrutecê-lo para modela-lo a sofrimen-
tos que não mais existirão” (Charles Fourier, mesma obra), Eis, portanto, retirada toda ambigüidade. Em sociedade liber~
leiria, o trabalho prúdutiva exigirá o refinamento dos costumes o do pensamento, O que será, portanto, esse trabalho?
Antes de mais nada, sabemos que, bem compreendido c bem repartido, ele poderia ser desde já reduzido a um curtíssimo tempo de serviço cotidiano para cada indivíduo. O automatismo robótico que cria, em regime capitalista, os flagelos do desemprego e da superprodução não deve oferecer a cada homem, além do direito ao trabalho, senão o direito a preguiça. Além disso, esse trabalho, liberado da exploração patronal e das condições impostas por um produtivismo de curta visão, reduz, na maioria das vezes, a simples vigilância das máquinas, as quais o operário, homem culto, conhecerá, a exemplo do antigo artesão, tão perfeitamente a vida íntima quanto 0 manejo prático – esse trabalho, tornado de novo atividade normal como 0 beber e o comer, será não apenas uma necessidade social, mas igualmente individual. Em outras palavras, o trabalho não mais será essa perpétua escravização que a religião justifica enquanto “castigo divino”.

Nessa perspectiva, certas atividades consideradas ainda hoje pela maioria como irremediavelmente reservadas a uma minoria, vão encontrar uma nova fórmula. Refiro-me à pesquisa científica e à criação artística. O luxo do qual fala Fourier, deve ser, no domínio do espírito bem como na prática, acessível a todos. É o que deveria explicar, cem anos após o autor da Associação doméstica e agrícola, a interrogação feita pelos surrealistas: “O surrealismo é o comunismo do espírito?”.

Supondo que, sob regime hierárquico, Newton, “se ele tivesse sido marinheiro ou mineiro… não teria descoberto a lei da gravitação universal” (Gaston Lcval, Estudos Anarquistas, n 6), a sociedade libertária devera, ao contrário, dar a todos o tempo livre para ver as maçãs caírem e extrair desse fato tais conclusões que lhes aprouver – e nisso consistirá sua grande vitória.

Em corolário à redução maciça das horas de trabalho, assistiremos à multiplicação das possibilidades de satisfazer
a necessidade de conhecimento inerente a cada um dos que não tinham anteriormente tempo livre para isso. E podemos
pensar que a acessibilidade da criação artística e poética a todos estaria longe de ser um empobrecimento: basta consta-
tar o declínio da canção popular nas mãos dos “profissionais”.

Na realidade, é a aplicação do novo regime que apresenta os problemas mais árduos, sendo os períodos de transição os mais  difíceis. Trata-se, para resultar na situação que acabo de evocar, de partir de uma organização (se se pode assim dizer) onde as massas populares estão, em geral, insensibilizadas e esterilizadas por um feixe de demagogias contraditórias em seus meios, senão em seu fim, enquanto a atividade mental, que deveria ser para todos o essencial, encontra-se monopolizada por alguns especialistas raramente desinteressados.

Não se deve, durante o período de reorganização política e econômica, que requer uma atividade intensa por parte de
todos, negligenciar um único instante a delicada tarefa de restabelecer em todos os seus direitos a consciência indivi-
dual. O exemplo de Barcelona (l936) provou-nos que nada impede, em período revolucionário, o desenvolvimento das
escolas e das universidades populares. É preciso ainda que o ensino ministrado não o seja ao acaso: sabemos muito bem
que o falso conhecimento é pior do que a ignorância, e pensamos de bom grado que uma consciência mais clara das
necessidades profundas do homem, considerado como um lodo vivo, cujos princípios materiais e espirituais não cessam
de reagir uns sobre os outros, teria evitado vários erros de julgamento fatais aos revolucionários do passado.

Eis por que pensamos que toda propaganda revolucionária será ineficaz se ela limitar-se ao domínio social e econômico: a reivindicação humana deve estender-se para bem além do pão e do vinho cotidianos como, apesar de tudo,

Guy Doumayrou
9 de novembro de 1951

O Sonho e a Revolução

26 out

O SONHO E A REVOLUÇÃO

J can Schuster
Le Libertaire, 26 de outubro de 1951

O sonho nao é o contrário da realidade. Ele é um aspecto
real da vida humana, assim como a ação; e um e outra, bcm
longe de excluirem-se, completam-se, Todavia, este aspecto,
neglicenciado ou voluntariamente relegado ao plano das su-
perstições perigosas pela civilização atual (a das casernas,
das igrejas e das delegacias) contém os fermentos de revolta
mais violentos por serem os mais profundamente humanos.
Compreende-se que a vontade de obscurantismo dos mes-
tres-penradores seja sempre manifestada por um desprezo
total em relação ao sonho. Sua inteligência limitou-se a
tolerar (e talvez a favorecer) a difusão das “Chaves dos So-
nhos”, obras desnaturadas, de caráter puramente supersti-
cioso, fantasioso ou idiota. Mas os povos que o odioso bom
senso europeu obstina-se em denominar “primitivos” (primi-
tivos porque nunca conhecerão os segredos da bomba atô-
mica, ou simplesmente da hipocrisia diplomática) concedem
ao sonho um lugar de primeiro plano,
Freud, desvelando o mecanismo do sonho, interpre-
tando-o, demonstrou que ele constituía o perfeito revelador
das tendências e dos desejos mais secretos do homem. Sabe-
se agora que não existe sonho gratuito, que pelo simplcs fato
de sonhar o homem muda seu destino, mesmo que essa mu-
dança permaneça impereeptível. Desperto, o homem apre-

ende do mundo o que sua razao e seus sentidos bem quiserem
deixar-lhe aperceber, isto é, uma íntima parte do que real-
mente é; em sonho, os objetos, os sentimentos, as relações
mais audaeiosas tornam-se-lhes lícitas, familiares. Desceu ao
coração de si mesmo, ao coração das coisas.
Isto e válido tanto para as coletividades quanto para os
indivíduos. Se o sonho é a expressão do desejo, se a expli-
cação de um pode preludiar. numa certa medida, a realização
do outro, o maior desejo coletivo e a revolução. G.C. Lichten-
berg lamentava que a história fosse feita unicamente da nar-
rativa dos homens despertos. Quando, numa noite, todos os
explorados sonharem que é preciso acabar e como acabar
com o sistema tirânico que os governa, aí então, talvez, a
aurora surgirá em todo o mundo, sobre barricadas.

Animação, a bebida da alma

3 set

Um poema simples

Survival Guide for Citizens in a Revolution

2 jul

This is a guide for some directions in case of bigs moviments.

Anonymous_-_++Survival_Guide_for_Citizens_in_a_Revolution

Use it with conscience