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Desafio Telecentro 1 – Requisitos

7 jan

Desafio Telecentro é montar uma sala de uso para telecentro, com um servidor de controle, e algumas dúzias de clientes, o serviço para ao usuário é gratuito, mas há limite de tempo de uso.

Recursos Necessários

  • Um Computador para ser servidor de controle
  • Dez Computadores (para início dos testes)
  • Uma impressora
  • Roteador

Este são os recursos básicos mínimos necessários para começarmos.

Como gerenciar um Telecentro

5 jan

Agosto de 2010, em alguma cidade do interior, faz um calor de 30°, e preciso imprimir um documento, passo na frente de um prédio está uma placa “Telecentro – Sala de Inclusão Digital”, pensei está ai pode ser que imprimam, entrando na sala, com apenas 10 computadores, fui a mesa central e disse que gostaria de imprimir, o atendente me perguntou: Sabe imprimir? Respondi que sim, claro. Entrei no pc com a senha e o usuário, que me havia sido entregue, e então acesso meu email, imprimo o boleto, pergunto quanto é e ele diz, não é nada, é público.

Fiquei admirado com a facilidade do serviço, rápido e simples. Ainda neste ano eu era um futricador do Linux, admirador incontestável do Software Livre, e ao me deparar com um cliente Linux, ligado ao servidor Linux, fiquei entusiasmado, e cai na real, como poderia montar uma sala do Telecentro, ou uma LanHouse dentro do sistema Linux?

A coisa ficou feia, não havia softwares exclusivo para isso no mundo Linux, nem no OpenSource, o que haviam eram freewares, ou softwares comercias, mas todos para plataforma microsoft … o desafio era montar uma lan com gerenciador … e o desafio não foi conquistado, uma batalha épica se perdeu.

Agora passados 5 anos, aca estou eu do outro lado da mesa, como prestar um serviço público usando Gerenciadores de Telecentro, ou de LanHouse, ou algo do tipo? E para que se evite maiores delongas, foi necessário utilizar os sistemas Windows, não por escolha, tendo um servidor na sala e algumas dezenas de computadores clientes, e fica o desafio qual software atende as necessidades de um telecentro? Poucos, me arriscaria a dizer que nenhum, embora seja ousado, mas para plataforma windows com telecentro não há, há sim soluções linux prontas, mas que exigem certos cuidados especiais para usar, mas como eu disse, a plataforma agora é a da telinha azul do Bill Gates.

 

Nota

Sandino 1990 Miguel Tinttím

3 jan

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Filme de Miguel Tinttím que retrata sobre o maior lutador da América Latina, la lucha siegue.

Torrentinho

magnet:?xt=urn:btih:cf7334937a36e5491283829f4db4cb974fd4f505&dn=Sandino%20%28Miguel%20Littin-1990%29.avi&tr=http%3A%2F%2Ftracker.openbittorrent.com%2Fannounce&tr=udp%3A%2F%2Fopen.demonii.com%3A1337

https://kickass.so/sandino-1990-t3896108.html

Enfoque Petrobras

10 set

Um grande movimento nacionalista brasileiro foi a campanha: “O Petróleo é nosso!”. Pode-se dizer que vinha desde a guerra européia, que demonstrara como o petróleo se tornara essencial para a sustentação da luta. Mas existe no Brasil desde a criação do Conselho Nacional do Petróleo, sob o comando do General Horta Barbosa. Daí por diante o esforço se traduziu num trabalho de persuasão, e de conquista da opnião, até chegar à criação da Petrobrás, como monopólio do Estado (1953). Nessa londa batalha, começamos a compreender que havia petróleo no Brasil, não obstante a campanha sistemática dos técnicos estrangeiros. E os recursos começaram a crescer, para nos proporcionar as refinarias que precisavámos, os eleodutos, a frota de petroleiros, tudo à custa de capitais nacionais e sob direção nacional. Cresceu tanto a PETROBRÁS, que começou a exercer uma função insuspeitada, quando apareceram os diretores, que talvez trouxessem no bolso ordens ou recomendações para supressão da autarquia. E que invez de destruí-la, sentiram-se conquistados pela causa que ela representava e passaram a lutar pela sua expansão.

Mas para chegar a esse ponto, quanto sacríficio suportado! E prisões, e cadeia para responder pelo crime de procurar dar ao Brasil as armas de que ele precisava para sua defesa e desenvolvimento. E aí está a PETROBRÁS triunfante, entre as grandes empresas do mundo. Como falar, em relação a ela, e ao Brasil, em nacionalismo negativo? Haverá quem hoje tenha dúvidas de que a Petrobrás é uma das forças mais positivas do desenvolvimento brasileiro?

 

Barbosa Lima Sobrinho, O enfoque histórico do desenvolvimento ecônomico, 1995, Em Defesa do Interesse Nacional, Editora paz e terra.

População organiza plebiscito e reivindica constituinte para mudar sistema político

29 maio
Por que a saúde e a educação públicas tem tantos problemas, os professores recebem tão pouco e faltam creches? Por que o transporte é tão caro e de péssima qualidade? Por que o dinheiro que deveria ir pra área social vai pro bolso dos ricos?Porque é preciso fazer reformas profundas no nosso país, mas com atual sistema político não dá! Nele o povo não está representado.
 No atual sistema político, as empresas  nanciam mais de 90% dos recursos das campanhas eleitorais, os eleitos são controlados pelos interesses delas e não dos cidadãos que votaram.

 

Baixem o Jornal no Link Abaixo

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Antirracistas é o que somos! Ou porque não aceitamos ideias racistas em pele de bananas!

5 maio

Protagonizada por Neymar Jr e Luciano Hulk, a campanha #somostodosmacacos referenda a animalização, ou pior, a desumanização do povo negro que historicamente busca superar os diversos obstáculos que o racismo institucional ainda nos impõe. Não é possível admitir que essa jogada de marketing seja para o combate ao racismo que ocorre nos estádios da Europa, nem tão pouco fora deles. Ainda mais, se utilizando de uma palavra de protesto dos movimentos sociais – “somos todos” – que sugere a solidariedade e identidade com as lutas e lutadores do povo brasileiro.

O que constatamos neste caso é mais uma das capacidades que a ideologia capitalista tem de se apropriar e tirar do lugar ideias e fatos inadmissíveis, tornando-os aceitáveis, para aumentar os níveis de exploração e alienação. Vejamos. Um conjunto de famosos globais, com várias fotos “selfies” atrás de bananas inundam as redes sociais para corroborar com a ideia sem cabimento que é: afirmar que gente não é gente! Com isso perguntamos: A quem serve esse tipo de autodeclaração? E por que playboys querem sair por aí se dizendo bichos? Que tipo de movimentação é essa que esvazia o conteúdo histórico da luta antirracista?

Em tempos de informação instantânea, é fundamental voltar à História, para aguçar nossa consciência crítica, mesmo que de forma breve, para recuperar as principais questões desse absurdo que aqui denunciamos. O tráfico e a escravização de indígenas, negros e negras da América Latina e África, no período colonial serviram de ensaio para a consolidação da era capitalista em que vivemos até hoje, infelizmente. Desde então, a ciência, a religião e a política hegemônica – para citar alguns dos elementos que são bases para a dominação capitalista – buscam higienizar e segregar a população indígena e negra do processo civilizatório e de desenvolvimento. Utilizando-se destas populações, como base de experimentos, mão de obra, ou, em se tratando de jogadores de futebol, como descreveu Eduardo Galeano, pés de obra.

Assim, não é à toa que há pouco mais de um século o Brasil tenha sido o último país no ocidente a decretar a abolição da escravidão e que povos dos países africanos, já no século XX, ainda estivessem em luta pela libertação da colonização europeia. Até hoje, nós, negras e negros, lutamos para que ocorra a descolonização das mentes. Lutamos pela garantia da nossa cidadania e a garantia dos nossos direitos! A naturalização da dominação via ideologia capitalista sustentou por muito tempo a superioridade do pensamento branco/heterossexual/masculino como o mais qualificado e aceitável. Por isso, a questão racial é uma questão que até hoje, nós, de movimentos sociais, disputamos e disputaremos, pois a igualdade racial é crucial para a estruturação de uma sociedade livre!

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Por fim, desconfiemos ainda mais deste caso que está tão referendado nas telas da Rede Globo, com camiseta e garotos-propaganda. O povo não é bobo e sabemos que a mídia racista, machista e golpista busca construir a alienação através dos seus meios e figuras publicitárias, pois negam e subalternizam o negro na caracterização do povo brasileiro em toda a sua programação e a mulher negra, que é hipersexualizada, serve de fetiche folclórico para “gringo” ver. Comparar gente a macaco é legitimar o encarceramento em série que ocorre no Brasil, onde nós, negros periféricos, somos a maioria! Em que o acesso à justiça é negado ao conjunto da população negra e a criminalização desse povo faz parte do procedimento padrão para se instaurar a segurança pública deste país que, não por acaso, sempre se baseou no genocídio da juventude negra e pobre. Trabalho, educação, cultura e saúde são outras áreas onde estamos à margem, e se há um processo de reparação e ação afirmativa, como as cotas, a elite com consciência colonizada que sempre quer subir na vida se rebela, e preza por defender a meritocracia ao invés da democratização das oportunidades.

Por tudo isso, não existe simpatia ou bom humor que nos faça aceitar essa manobra racista de assumir que no Brasil (sede da Copa, não é?) só existam macacos. É muito oportunista e acima de tudo perigoso ceder ou se acomodar, pois esta campanha reforça o estereótipo que ganha uma proporção mundial. A igualdade e a liberdade se conquistam. Esse será o significado dos nossos protestos e ações, ao invés de assumir o lado do opressor. Lutaremos de punhos cerrados, unidos fortemente por justiça para mudar este jogo: as pretas e pretos no poder!

Por Suzany Ludimila, militante do Levante Popular da Juventude da Paraíba

Admirável Direito Novo

18 mar

Admirável Direito Novo.

Haveria um paralelo entre o vazio do Direito e Política contemporâneos e a sociedade de condicionamento moral e social imaginada por Aldous Huxley? 

Por André Felipe Portugal*

“Oh, maravilha! Como há aqui seres encantadores! Como é bela a humanidade! Oh, admirável mundo novo!” [1]

Tomado pelo entusiasmo, o selvagem John, personagem de Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, descrevia o que esperava da sociedade fordista que, logo mais, viria a conhecer.

Na chegada à terra prometida, John se deparou com o condicionamento moral e social a que eram submetidos aqueles cidadãos. Não havia crenças, nem laços familiares. Também não havia livros. Não se lhes era permitido pensar (não que alguém o desejasse). O que havia era a explícita padronização (extinção) do sujeito, transformado em número e destinado unicamente a auxiliar o governo na manutenção da estabilidade social.

Não poderia ser diferente, aliás. Na medida em que, como em Gattaca, as pessoas eram fabricadas por procedimentos artificiais, a seleção social era previamente determinada. De um lado, fabricavam-se os Alfas; de outro, os defeituosos (Ípsilons), mas também relevantes na manutenção daquele status quo. Do mesmo modo, o autoritarismo estatal, quando influenciava o inconsciente dos cidadãos, seja através de ações explícitas, como na proibição de livros perigosos (Shakespeare, por exemplo), seja através de procedimentos implícitos, como a técnica da hipnopedia, pela qual lhes eram constantemente impregnadas frases prontas e distribuídas diariamente largas quantias de soma [2], lograva êxito em sua tarefa de banir o surgimento de qualquer pensamento crítico.

Se “não há estabilidade social sem estabilidade individual”; “setenta e duas mil repetições fazem uma verdade”; “quando o indivíduo sente, a comunidade treme”; “civilização é esterilização” e “um grama de soma vale mais do que o mal que se proclama” [3], a democracia, em seu sentido correto, evidentemente não existe.

Tempos depois da desilusão, porquanto se tratava de uma sociedade explicitamente padronizada, desprovida de pensamento e de qualquer senso da realidade (optava por abandoná-la, em troca do prazer), o selvagem “despertou novamente para a realidade exterior, olhou em torno de si, reconheceu o que estava vendo – reconheceu, com uma desalentadora sensação de horror e repugnância, o delírio incessantemente renovado de seus dias e suas noites, o pesadelo da pululante mesmice indistinguível. (…) Estacou, circunvagou os olhos aturdidos e horrorizados pela multidão vestida de cáqui no meio da qual se achava, com sua cabeça sobressaindo acima dela. ‘Como há aqui seres encantadores!’ As palavras cantantes vergastaram-no com seu sarcasmo. ‘Como é bela a humanidade! Oh! Admirável mundo novo…!’”

A despeito de a obra de Huxley ter sido escrita em 1932, sua atualidade é manifesta. Deste modo, parece interessante tentar, de modo fictício, analisar qual seria a reação de John, o selvagem, ao pisar na sociedade atual, mormente a brasileira.

Com efeito, nosso Admirável Mundo Novo, de modo algum adequa-se às expectativas que levaram o personagem à comunidade fordista. Vejamos.

Ainda que inexista a expressa censura a obras de conteúdo perigoso, não há como negar a doutrinação implícita das massas. Como no fordismo, busca-se condicionar as pessoas a aceitarem e se sentirem felizes com o destino ao qual estão inexoravelmente vinculadas, principalmente em decorrência das condições sociais.

Com isto, é atingida a mesma situação de ausência de pensamento crítico e senso de realidade. As frases prontas, principalmente nas searas política e jurídica, na medida em que adentram o inconsciente da população, tornam-se obstáculos a qualquer manifestação que possa abalar o establishment. Chega-se a um caminho semelhante à novilíngua, de Orwell [4], caracterizada pela redução quantitativa da linguagem, pelo Grande Irmão, com vistas à redução das condições de possibilidade de pensamento dos cidadãos. Neste caso, é verdade, o procedimento ocorre de modo não tão expresso.

Não existindo vontade de pensar (algo semelhante à síndrome do intelecto preguiçoso, de que fala Saramago [5]), opta-se por métodos mais fáceis e convenientes de apreensão de informações. E, como se ressaltou, o Direito não se vê livre disto. Pelo contrário, tem sido cada vez mais notória a influência deste imaginário no âmbito jurídico, cada vez mais visto pelos estudantes exclusivamente por seu aspecto pragmático. Ao invés de estudos aprofundados a partir de obras de fato teóricas, opta-se pelo caminho menos complexo, encontrado naquelas cuja leitura não exige qualquer reflexão crítica. Neste sentido, faça-se alguma justiça aos alunos: o sistema lhes exige (apenas) isso.

O Direito, como a política, deve ser visto como instrumento de transformação da realidade social. Se, no entanto, ambos se veem embalados por esta onda de ausência de pensamento, torna-se difícil superar a manipulação, tanto mais em um sistema no qual a exclusão é o pressuposto de sua eficiência. Assim, “bandido bom” sempre será “bandido morto”, o Estado sempre será um mal, direitos fundamentais serão garantidos somente “para quem os merece” e os juízes sempre decidirão “conforme sua consciência”. Processo para quê, se “há casos em que a sentença já está escrita antes do crime”? [6].

Como em Huxley (e Orwell), a democracia sucumbe. O ser humano não é visto como tal, mas como número. Como em Hannah Arendt, o mal é banalizado [6]. Como em Saramago, a cegueira branca toma conta da sociedade, as pessoas perdem os olhos e não mais veem uns aos outros [7].

Diante de tais constatações, John, ironicamente, afirmaria: “Oh, maravilha! Como há aqui seres encantadores! Como é bela a humanidade! Oh, admirável mundo novo!”.

E se perguntaria, logo após: quando é que tornaremos a ter olhos?

Nota

Mais do que fúria na Bósnia

19 fev
Zizek: Há mais do que fúria na Bósnia
 
Ao unirem três etnias da ex-Iugoslávia, protestos retomam projeto emancipatória e revelam: é possível enfrentar onda de fundamentalismo que atravessa o planeta

Por Slavoy Zizek, no Outras Palavras

Para Zizek, é possível enfrentar o fundamentalismo que atravessa o planeta

Semana passada, cidades queimavam,[1] na Bósnia-Herzegovina. Tudo começou em Tuzla, cidade de maioria muçulmana. Os protestos então se espalharam até a capital, Sarajevo, e Zenica, mas também até Mostar, onde vive largo segmento da população croata, e Banja Luka, capital da parte sérvia da Bósnia. Milhares de manifestantes furiosos ocuparam e incendiaram prédios públicos. Embora a situação já tenha se acalmado, persiste no ar uma atmosfera de alta tensão.

Os eventos fizeram surgir teorias da conspiração (por exemplo, que o governo sérvio teria organizado os protestos para derrubar o governo bósnio), mas é preciso ignorá-las firmemente, porque, haja o que houver por trás das manifestações, o desespero dos manifestantes é autêntico. Fica-se tentado a parafrasear aqui a famosa frase de Mao Tse Tung: há caos na Bósnia, a situação é excelente![2]

Por quê? Porque as exigências dos manifestantes são as mais simples que há – emprego, uma chance de vida decente e o fim da corrupção – mas mobilizaram pessoas na Bósnia, país que, nas últimas décadas, tornou-se sinônimo de feroz limpeza étnica.
Antes disso, os únicos protestos de massa na Bósnia e em outros estados pós-Iugoslávia tinham a ver com paixões étnicas ou religiosas. Em meados de 2013, dois protestos públicos foram organizados na Croácia, país mergulhado em profunda crise econômica, com desemprego alto e profundo sentimento de desespero: os sindicatos uniram-se para organizar uma manifestação em apoio aos direitos dos trabalhadores, ao mesmo tempo em que nacionalistas de direita[3] iniciavam um movimento de protesto contra o uso do alfabeto cirílico em prédios públicos em cidades de minoria sérvia. A primeira iniciativa levou umas duas centenas de pessoas para uma praça em Zagreb; a segunda mobilizou centenas de milhares, como, antes, acontecera num movimento fundamentalista contra o casamento de homossexuais.[4]

A Croácia está longe de ser exceção: dos Bálcãs à Escandinávia, dos EUA a Israel, da África Central à Índia, está começando uma nova Idade das Trevas, com paixões étnicas e religiosas explodindo, e com os valores das Luzes retrocedendo. Essas paixões sempre arderam por trás de tudo, mas a novidade é que, hoje, aparecem desavergonhadamente expostas.

Assim sendo, o que fazer? Liberais dominantes nos dizem que, quando os valores básicos da democracia são ameaçados por fundamentalistas étnicos ou religiosos, temos todos de nos unir numa agenda liberal-democrática de tolerância cultural, salvar o que possa ser salvo e deixar de lado todos os sonhos de transformação social mais radical. Nossa tarefa, dizem eles, é clara: temos de escolher entre a liberdade liberal e a opressão fundamentalista.
Porém, quando nos fazem, em tom triunfalista, perguntas (exclusivamente retóricas!) como “Você deseja que as mulheres sejam excluídas da vida pública?” ou “Você deseja que todos os que critiquem a religião sejam condenados à morte?”, o que mais nos deve fazer desconfiar da pergunta é a obviedade da resposta.

O problema aí é que esse universalismo liberal simplório já perdeu a inocência, há muito tempo. O conflito entre a permissividade liberal e o fundamentalismo é, na verdade, um falso conflito – um círculo vicioso e viciado no qual os dois polos pressupõem-se e geram-se mutuamente, um o outro.

O que Max Horkheimer[5] disse sobre o fascismo e o capitalismo lá nos anos 1930s (que os que não querem falar criticamente sobre o capitalismo devem também calar sobre o fascismo) pode aplicar-se ao fundamentalismo de hoje: os que não querem falar criticamente sobre a democracia liberal devem também calar a boca sobre o fundamentalismo religioso.

Reagindo contra caracterizar-se o marxismo como “o Islã do século 20”, Jean-Pierre Taguieff escreveu que o Islã está em vias de mostrar-se como o “marxismo do século 20” para prolongar o violento anticapitalismo do comunismo, depois do declínio do comunismo.

Mas as recentes vicissitudes do fundamentalismo muçulmano confirmam, pode-se dizer, o antigo insight de Walter Benjamin, de que “cada ressurgimento do fascismo dá testemunho de uma revolução fracassada”. O crescimento do fascismo é, em outras palavras, o fracasso da esquerda e, simultaneamente, prova de que subsiste um potencial revolucionário, uma insatisfação, que a esquerda não é capaz de mobilizar. E não se pode dizer exatamente a mesma coisa do hoje chamado “islamo-fascismo”? O surgimento do islamismo radical não é perfeito correlato do desaparecimento da esquerda secular nos países muçulmanos?

Quando o Afeganistão é apresentado como país fundamentalista islamista “típico”, quem ainda lembra que, há 40 anos, foi o país de mais forte tradição secular, incluindo um poderoso Partido Comunista que chegou ao poder no Afeganistão, independente da União Soviética?

Esse é o contexto no qual se tem de compreender os recentes eventos na Bósnia. Numa das fotos dos protestos, veem-se os manifestantes exibindo três bandeiras lado a lado: da Bósnia, da Sérvia e da Croácia, mostrando o desejo de ignorar todas as diferenças étnicas. Para resumir, temos aqui uma rebelião contra elites nacionalistas: o povo da Bósnia afinal compreendeu quem é o seu verdadeiro inimigo: não outros grupos étnicos, mas os seus próprios “representantes” políticos que fingem protegê-los contra os demais. É como se o velho e tantas vezes mal usado lema titoísta[6] da “fraternidade e unidade” das nações iugoslavas ganhasse nova atualidade.

Um dos alvos dos manifestantes era o governo da União Europeia que supervisiona o estado bósnio, forçando a paz entre as três nações e oferecendo considerável ajuda financeira para ajudar no funcionamento do Estado. Pode parecer estranho, porque os objetivos dos manifestantes são, nominalmente, os mesmos objetivos de Bruxelas: prosperidade e o fim das tensões étnicas e da corrupção.

Contudo, o modo como a União Europeia realmente governa a Bósnia cria divisões: a União Europeia só vê, como suas parceiras privilegiadas, as elites nacionalistas, entre as quais faz uma mediação.

O que as explosões na Bósnia confirmam é que ninguém jamais conseguirá superar paixões étnicas impondo a elas uma agenda liberal: o que uniu os manifestantes foi uma mesma radical exigência de justiça.

O passo seguinte e mais difícil será organizar os protestos num novo movimento social que ignore as divisões étnicas; e organizar novos protestos – já imaginaram uma cena, com bósnios e sérvios furiosos, reunidos num comício conjunto, em Sarajevo?

Ainda que os protestos percam gradualmente a força, ainda assim permanecerão como uma fagulha de esperança, como soldados inimigos que se abraçavam nas trincheiras, na primeira guerra mundial. Eventos autenticamente emancipatórios sempre incluem ignorar identidades.

E vale o mesmo para a recente visita de duas representantes do movimento Pussy Riot a New York: num grande show de gala foram apresentadas por Madonna, na presença de Bob Geldof, Richard Gere, etc., toda a gangue dos direitos humanos de sempre. Deveriam ali, isso sim, manifestar solidariedade a Snowden, para mostrar que o Pussy Riot e Snowden são parte do mesmo movimento global. Sem esses gestos que aproximem o que, na nossa experiência ideológica diária, parecem ser coisas incompatíveis (muçulmanos, sérvios e croatas na Bósnia; secularistas turcos e muçulmanos anticapitalistas na Turquia, etc.), os movimentos de protesto sempre serão manipulados por alguma superpotência, em sua luta contra

http://revistaforum.com.br/blog/2014/02/zizek-ha-mais-do-que-furia-na-bosnia/

Gás do Xisto, por trás dos bastidores mais que a dúvida.

19 nov

Gás do Xisto, por trás dos bastidores mais que a dúvida.

A Agência Nacional do Petróleo –  ANP – anunciou a decisão de incluir o chamado “Gás de Xisto”, obtido por fraturamento da rocha (shale gas fracking), classificado como “gás não-convencional”, na licitação, realizada em outubro, tem como alvo campos de gás natural em bacias brasileiras, o leilão da 12ª Rodada está marcado para os dias 28 e 29 de novembro e ofertará 240 blocos exploratórios em sete bacias sedimentares, nos estados do Amazonas, Acre, Tocantins, Alagoas, Sergipe, Piauí, Mato Grosso, Goiás, Bahia, Maranhão, Paraná, São Paulo, em mais de 168 mil quilômetros quadrados.

O método para o extrair, apelidado de “fraturação”, é controverso. A exploração do Gás de Xisto, apesar do sucesso econômico apresentado principalmente pelos Estados Unidos como “a Revolução do Xisto”, tem sido muito questionada pelos riscos e danos ambientais envolvidos. Enquanto o gás natural e o petróleo ocorrem em rochas porosas ou fraturadas, o gás de xisto impregna toda uma rocha ou formação geológica impermeável.

A técnica utilizada é a perfuração horizontal, a três quilômetros de profundidade, chamada de fratura hidráulica, a extração é iniciada quando injetam nos tubos, a alta pressão, milhões de litros de água misturada com químicos, para puxar o gás de xisto das rochas em direção à superfície.

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  É preocupante os altíssimos volumes de água que resultam poluídos diversos compostos e metais presentes na rocha, nos explosivos e nos próprios aditivos químicos requeridos pela complexa atividade de mineração do gás, exigindo dispendiosas técnicas de purificação e de descarte dos resíduos finais. E ainda mais, o que será feito da água contaminada, haverá um tratamento específico para ela?

Existem claras evidências da penetração nas águas que se infiltram entre RS e SC,  além da presença de óleo antigo em fraturas do sistema Aquífero Serra Geral, essa impregnação que ocorre se mostra como um “vazamento” aéreo por dentro das rochas.

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O  Plano Decenal de Expansão de Energia – PDE 2012—2021, lançado

em janeiro, procura tirar partido da abundância de petróleo e gás natural encontrado no território nacional. No entanto o gás do xisto não é sequer citado no plano 2012-2021, a pergunta é por que tanta pressa na extração do gás, quais legislações protegem o meio ambiente, quais os impactos sociais que serão levados em conta, esses questões ainda não temos respostas.

Muitos desafios estão colocados, a continuidade da economia global altamente dependente do sistema energético, por sua vez exige uma regulamentação para seus tributos, e políticas aplicadas.

A água tem um papel fundamental no uso da extração do gás de xisto, e por ela ser contaminada, ela será reutilizada, mas até que ponto? E para onde vai essa água quando for descartada? Ela interferirá nas nascentes e fontes subterrâneas, certamente, ainda mais, e o acesso dos povos à água? Nenhuma legislação tratará disso após os leilões! Outra coisa, todo o xisto se encontra sobre os aquíferos …

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Soberania, a gente não se vê por aqui.

Referência Bibliográfica:

Este texto é uma adaptação dos seguintes artigos:

22 empresas mostraram interesse na 12ª rodada, diz ANP

http://g1.globo.com/economia/noticia/2013/10/22-empresas-mostraram-interesse-na-12-rodada-de-petroleo-diz-anp.html

O polémico, arriscado e lucrativo gás de xisto

http://pt.euronews.com/2012/11/02/o-polemico-arriscado-e-lucrativo-gas-de-xisto/

CEDES – CENTRO DE ESTUDOS E DEBATES ESTRATÉGICOS DA CÂMARA FEDERAL – Prof. Dr. Luiz Fernando Scheibe – Brasília, 05 de junho de 2013, no DIA MUNDIAL DO MEIO AMBIENTE

What is shale gas and why is it important?

http://www.eia.gov/energy_in_brief/article/about_shale_gas.cfm

Todos foram acessados em novembro de 2013, o artigo também foi adaptado na mesma data.

Xingu SA

16 out

Xingu SA

Ouvem-se muitas histórias de regiões inteiras do mundo atrasadas por falta de recurso financeiro. Cria-se uma série de programas sociais, supostamente para a classe rica ajudar a classe pobre. É antiga a questão mundial entre o Norte e o Sul. E sempre se apresenta o dinheiro como a solução definitiva de todos os problemas, ainda que, por trás dele, haja intenções inconfessas.

Mas é interessante! Aqui na Amazônia, há situações em que ocorre o contrário. Indígenas estão sendo estraçalhados por ‘excesso’ de dinheiro. As fontes podem secar ou não da noite para o dia a bel prazer da Norte Energia, colocada como a dona de Belo Monte, e do governo. Os nativos não têm o controle dos cifrões. E uma cidade inteira está em agonia, impactada pelo volume financeiro de Belo Monte advindo da mercantilização do Xingu.

Esse é um elemento curioso! Já não é mais suficiente dizer que o erro está no fato de nossa riqueza ir embora em forma de remessas ao capital imperialista, materializado em transnacionais privadas ou estatais: Eletrobrás, Eletronorte, Chesf, Neoenergia, Vale, Cemig, os gigantes donos de Belo Monte. Pois os vinténs que ficam, controlados por uma estrutura política totalmente viciada, não se traduzem em políticas públicos a benefício do povo e da classe trabalhadora.

Essa estrutura de organização capitalista de sociedade, cujo motor é a exploração, gera pessoas-monstros miseravelmente ricas; são tão pobres, mas tão pobres de valores humanitários, que fazem tudo pelo dinheiro, e se comportam como macaco em casa de louça (sem querer ofendê-lo), quebrando tudo pela força bruta do poder.

Vitória do Xingu, município-sede de Belo Monte, é um caso típico, e virou um canteiro de obras! A cidade, que tem cerca de sete mil habitantes e um ISS – Imposto Sobre Serviços – próximo de dez milhões/mês, está com as ruas, todas, reviradas. A poeira toma conta nesse verão. Mesmo que se jogue água, tudo seca rapidamente com o calor intenso, trazendo complicações respiratórias, em especial para idosos e crianças. E não é fácil encontrar uma ficha para consulta médica.

Antes o sofrimento em Vitória fora o inverno. O lamaçal se agravara com a remoção do calçamento das ruas – ainda bom -, e da terra arenosa para colocação de argila, própria para receber o asfalto, que não veio até hoje. A promessa é de asfaltamento de toda a cidade. Por enquanto tudo são buracos e terra nua.

Uma conhecida nossa, que se mudara de São Paulo para Vitória, em março de 2013, contara o ‘seu’ caso, ao mesmo tempo exótico e dramático. Ela passava pela rua, desviando-se aqui e ali de um buraco, de uma lama; ia ao bairro Santa Clara, onde sua casa estava em construção. De repente, desequilibrara-se, ficara atolada no meio da rua, até o joelho. Jamais pensara que ali fosse assim tão fundo.

O jeito fora pedir socorro. Um senhor, que passava numa trilha firme, na rua próxima, ouviu os seus gritos. Ele ia de bicicleta. Ficara em dúvida, seguira adiante, mas logo resolvera voltar, vendo-a naquele estado lastimável. Tirara, então, o sapato, que estava limpinho, e se metera na lama, arrastando a mulher do atoleiro.

A parte central da cidade tem verdadeiras crateras. Estão furando tudo, e colocando manilhas enormes para rede pluvial. A rede de abastecimento de água, também em construção, foi testada, os canos não suportaram a pressão e se romperam, e os serviços agora estão parados. Os canos de rede de esgoto são mais finos, e há dúvida se suportarão. Não se sabe, também, se o esgoto será tratado, conforme promessa, ou apenas lançado ‘in natura’ no rio. O sal dos dejetos humanos corrói as turbinas da barragem, e lhe diminui a vida útil, mas Vitória está abaixo do muro de Belo Monte e, isso, deixa os construtores da barragem numa posição tranqüila.

O barulho das máquinas pesadas é ensurdecedor. Bem à frente da casa onde Pedro, também conhecido, esteve hospedado, uma retro-escavadeira na rua fura um rasgão. Ele disse que foi obrigado a passar da sala para a cozinha, nos fundos. Não resolveu! Ao barulho, juntam-se as batidas fortes no chão seco, fazendo o computador tremer em cima da mesa. Pior, disse, foi o rolo logo após, compactando; o vidro da janela tremia todo, parecia que a casa viria a baixo.

A intensidade da ‘zuada’ constante dói os miolos. Quando a máquina dá ré, solta apitos finos e estridentes. A retro-escavadeira, com aquela munheca grande, e forte, fuça o chão, dando aqueles arrancos, com seus pés fincados em área firme e, enchendo a pá de terra, despeja tudo de uma só vez na caçamba do caminhão, cujo impacto provoca uma espécie de estrondo. A poeira sobe e espalha-se, alta e densa, encobrindo a visão.

Nas ruas vicinais, todas mexidas e remexidas, além da poeira no verão ou da lama no inverso, o compactador, um grande rolo que passa algumas dezenas de vezes no mesmo local, vem causando rachaduras nas casas. Marinalva conta que já se pode enfiar o dedo nos buracos da parede de sua morada.

Funcionários da empresa terceirizada da Norte Energia fotografaram tudo antes do início das intervenções, há mais de um ano, supostamente para comprobação de possíveis danos, e reparos ou indenização. Mas agora, quando alguém reclama, eles apenas dizem que foi a outra empresa. Algumas famílias, já impacientes, estão consertando por conta própria.

Uma jovem questionara a razão pela qual a intervenção está sendo feita na cidade toda ao mesmo tempo. ‘Não seria melhor terminar um bairro, e, depois, começar  outro’? Mas a empresa, entre o desdém e a displicência, apenas disse: ‘fizemos assim em outra cidade, mexendo em tudo de uma só vez, e deu certo’. A jovem ficara em silêncio. Muitos se calam por completo, pois percebem o descaso! Por dentro, porém, ela se contorcia.

Parece, de fato, não haver um planejamento do ponto de vista técnico. Na barragem é tudo calculado, tim-tim por tim-tim, a tempo e a hora, e, ali, é como um experimento. Vitória é cobaia! Muitos serviços feitos, e desfeitos com as chuvas do inverno, já foram refeitos mais de uma vez. Muita terra foi carreada para o igarapé Facão, um crime ambiental. Existem áreas de lazer, umas muito próximas a outras, com equipamentos exóticos que, provavelmente, jamais serão usados por gente do povo.

A empresa parece não se importar com isso. É preciso entender a sua lógica. Por um lado ela faz a obra apressadamente, pois, assim, terá mais dinheiro em menos tempo. Ainda mais que ela tem frentes de serviço em diversas regiões do Brasil.  Por outro lado, refazer serviço – o que seria um desperdício – e demorar com a obra – o que seria prolongar o transtorno – não é problema para a empresa; ao contrário, é até uma forma de mostrar um grande volume de trabalho e justificar a dinheirama gasta. Quanto às notas, frias ou quentes, é só uma questão de formalidade.

Diversos outros problemas vão aparecendo junto desse caos chamado progresso. Uma cidade antes pacata já não consegue ter paz. Duzentos reais que Clotilde levara na carteira para possíveis gastos em sua estadia em Vitória, e sua viagem de volta a Altamira, escafederam-se. Suas colegas desconfiam de um rapaz; elas deram razão de sobra para a desconfiança, mas não têm uma prova material. O fato é que as famílias já não têm mais o sossego de outrora, dormindo com janela e porta abertas. Quando saem, trancam tudo.

Cada espaço público já construído ou em construção na cidade tem três vigias, que revezam. Somam, ao todo, cerca de 200 vigias contratados numa cidade tão pequena. Chico pensa que o Prefeito se aproveita desse clima de insegurança para garantir emprego, cumprindo, assim, uma de suas promessas de campanha. E perpetuando-se no poder.

Lena, que alimenta um verdadeiro ódio contra a barragem, quase um fanatismo, sofre náuseas quando o dever lhe impõe o uso do tele-centro (público). Somente ali a internet tem sinal bom.

Sua raiva tem um viés familiar: o irmão dela perdeu a vista na barragem. Ele trabalhara lá. Num dia, estava no ônibus, e o pó de brita da estrada lhe penetrara a vista. Como ardia muito, procurara o médico da Norte Energia, que lhe receitara um colírio, e lhe dissera que poderia continuar trabalhando. Isso foi a desgraça dele! Passados quarenta dias, com o olho doendo, resolvera voltar ao médico, que o encaminhara para outro em Altamira e constatara uma úlcera dentro do olho esquerdo. Sua vista estava perdida.

Seu irmão fora afastado do serviço, e recebe uma espécie de pensão da empresa. A solução é o transplante do olho, mas fica muito caro, e a Norte Energia não assume.

O espaço do tele-centro, em Vitória, é todo controlado pela Norte Energia. À frente do prédio está escrito em letras grandes: ‘Balcão de informações – usina hidrelétrica Belo Monte’. A porta fica fechada. Abrindo-a, a pessoa dá de cara com um segurança. Do lado esquerdo, acha-se uma moça com ar de secretária atrás de um computador.  O estômago de Lena revira por dentro cada vez que vai lá. Mas não tem outra opção.

Sempre mais a Norte Energia faz de suas obrigações legais um instrumento de dominação dos gestores públicos – através de uma e outra obra – e das famílias – através do emprego, ainda que precário e temporário.

As autoridades e a Norte Energia fazem gracinha. As festas se multiplicaram. Distribuíram-se Tabletes e Notebooks para estudantes e professores. Cada vereador ganhou uma Hilux, com fornecimento de mil litros de combustível/mês.  A Prefeitura deu um desconto no ISS. Essas mordomias evidenciam que o Município nada em dinheiro, como se tivesse ganho na loteria. Essa dinheirama, porém, não tem significado melhora na qualidade de vida do povo.

A falta de recursos deixa muita gente à míngua no Brasil e no mundo. Altamira, situada no remanso do futuro lago de Belo Monte, reclama, com razão, do não cumprimento de condicionantes, em especial as estruturantes. Vitória do Xingu, ao contrário, tem um ‘excesso’ de recursos, que redunda em obras, mas que não se materializam em benefício real à população.

Aqui há uma verdade escancarada: a evolução de um povo não é uma questão de dinheiro e, muito menos, de obras feitas a deus dará, por formalidade.

A situação das populações ribeirinhas ainda é pior. Boa parte das casas são palafitas, às margens dos igarapés Gelo e Facão, somando quase três centenas de famílias. Corre boato de que serão todas desalojadas para construção de cais. Uma empresa terceirizada passou, cadastrou os moradores, mediu tudo, mas não conversou nem fez reunião com ninguém.

O boato da realocação divide as pessoas, e as deixa inseguras. Algumas ficam seduzidas com o sonho de uma nova casa, e com a cidade linda, rodeada pelo cais. Outras ficam vivamente chateadas, pois gostam da vida ali, ainda que precária.

O pior de tudo, porém, é a falta de informação. Uma arrogância, de quem pensa que o ‘técnico’ é que entende de obras, e que o povo não tem nada a contribuir. Enquanto tudo é boato, a vida fica parada, não se faz um puxado, não se constrói uma varanda, não se coloca uma pintura nova… O futuro é incerto!

Dona Graça mora à beira do Facão. Enquanto lava a roupa, num sábado de manhã, dentro do igarapé, com água até o joelho, vai contando a sua história. Foi pescadora, hoje já se aposentou por idade. Seu marido ainda exerce a profissão. Ela afirma com ar indignado:

‘A empresa diz que a barragem não interfere na vida do pescador. Ela não reconhece ninguém abaixo do muro. Mas é claro que interfere! O peixe diminuiu! A canoa vinha até aqui – apontando com o dedo. Agora é o que estas vendo. A terra da rua escavada desceu tudo para o rio. O igarapé virou um filete de água’.

Carla, que fora visitá-la, e ouvia a sua história, olhou para um lado, para outro, era mesmo tudo verdade. Perguntou-lhe se poderia tirar uma foto. Carla pensava que era importante registrar o que ela relatava. Aquele filete de água correndo, ela com a bacia cheia de roupa, as marcas da enxurrada da rua e a areia, cobrindo tudo.

‘Pode tirar foto sim! O que falei é tudo provado. O pessoal aqui tomava até banho no igarapé. Agora é só terra. Se a empresa quer construir cais aqui, tem que olhar o nosso lado. Aqui a gente está instalada, tem morada. Sair sem rumo não tem jeito’.

Dona Graça, na sua simplicidade e idade bem avançada, é uma mulher decidida.

Carla tirou a máquina da sacola, bateu a foto, e ainda a ouviu por uns instantes. Depois se despediu, apertando-lhe a mão. Ela abriu um sorriso, e disse:

– Volte depois!

– Vou voltar sim, em meados de outubro.

Enquanto ia passando pela areia, rumo à rua, já olhava o calendário. Pois a organização do povo somente caminha dentro de um processo. No mínimo, pensava Carla, precisamos buscar todas as informações e repassá-las às famílias. Informação também é poder.

Não é que Carla se admirasse do que as pessoas enxergam e sentem em Vitória. Apenas fica indignada, com a confirmação de que o desrespeito aos atingidos não é um caso isolado. Há um padrão de agressão aos direitos humanos, já reconhecido mas ainda não assumido pelo Estado brasileiro.

As mesmas promessas mirabolantes em Altamira também ocorrem ali, em Vitória do Xingu. Mas o certo é que tanto o descumprimento das condicionantes em Altamira quanto o ‘cumprimento’ em Vitória não têm incidido na melhora da qualidade de vida do povo. Pode ser mesmo que Vitória fique linda, como costumam dizer, mas com uma população sem garantia efetiva das políticas públicas elementares. Embelezam-se artificialmente as coisas, mas as pessoas ficam de lado.

Mas essa gente simples, em seus casebres e palafitas, não perde o humor. Com tantos buracos na cidade, estão apelidando o Prefeito de tatu de bigode. Não é fácil consumir 10 milhões/mês. E a questão é que esse dinheiro vai aumentar. Quando da sua operação, a partir do início de 2015 – se a barragem realmente seguir em frente -, a maior parte dos royalties de Belo Monte vai ficar na Prefeitura de Vitória. Não é sem razão que uma vaga no legislativo local, e no executivo, é disputada quase a tapa.

Belo Monte é um crime, cujas obras se iniciaram com uma licença parcial e com uma prepotência arrogante, numa ditadura econômica cacifada com dinheiro público pelo governo federal.

O mau exemplo se espalha como rastilho de pólvora. É de se prever o aumento significativo da corrupção em municípios, como Vitória, onde os gestores públicos terão que inventar formas para gastar todo o dinheiro. E não faltará criatividade! Ainda que as campanhas eleitorais acaloradas e as administrações quentes passem pelas notas frias turbinadas na energia do Xingu SA.

 

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