Nota

Mais do que fúria na Bósnia

19 fev
Zizek: Há mais do que fúria na Bósnia
 
Ao unirem três etnias da ex-Iugoslávia, protestos retomam projeto emancipatória e revelam: é possível enfrentar onda de fundamentalismo que atravessa o planeta

Por Slavoy Zizek, no Outras Palavras

Para Zizek, é possível enfrentar o fundamentalismo que atravessa o planeta

Semana passada, cidades queimavam,[1] na Bósnia-Herzegovina. Tudo começou em Tuzla, cidade de maioria muçulmana. Os protestos então se espalharam até a capital, Sarajevo, e Zenica, mas também até Mostar, onde vive largo segmento da população croata, e Banja Luka, capital da parte sérvia da Bósnia. Milhares de manifestantes furiosos ocuparam e incendiaram prédios públicos. Embora a situação já tenha se acalmado, persiste no ar uma atmosfera de alta tensão.

Os eventos fizeram surgir teorias da conspiração (por exemplo, que o governo sérvio teria organizado os protestos para derrubar o governo bósnio), mas é preciso ignorá-las firmemente, porque, haja o que houver por trás das manifestações, o desespero dos manifestantes é autêntico. Fica-se tentado a parafrasear aqui a famosa frase de Mao Tse Tung: há caos na Bósnia, a situação é excelente![2]

Por quê? Porque as exigências dos manifestantes são as mais simples que há – emprego, uma chance de vida decente e o fim da corrupção – mas mobilizaram pessoas na Bósnia, país que, nas últimas décadas, tornou-se sinônimo de feroz limpeza étnica.
Antes disso, os únicos protestos de massa na Bósnia e em outros estados pós-Iugoslávia tinham a ver com paixões étnicas ou religiosas. Em meados de 2013, dois protestos públicos foram organizados na Croácia, país mergulhado em profunda crise econômica, com desemprego alto e profundo sentimento de desespero: os sindicatos uniram-se para organizar uma manifestação em apoio aos direitos dos trabalhadores, ao mesmo tempo em que nacionalistas de direita[3] iniciavam um movimento de protesto contra o uso do alfabeto cirílico em prédios públicos em cidades de minoria sérvia. A primeira iniciativa levou umas duas centenas de pessoas para uma praça em Zagreb; a segunda mobilizou centenas de milhares, como, antes, acontecera num movimento fundamentalista contra o casamento de homossexuais.[4]

A Croácia está longe de ser exceção: dos Bálcãs à Escandinávia, dos EUA a Israel, da África Central à Índia, está começando uma nova Idade das Trevas, com paixões étnicas e religiosas explodindo, e com os valores das Luzes retrocedendo. Essas paixões sempre arderam por trás de tudo, mas a novidade é que, hoje, aparecem desavergonhadamente expostas.

Assim sendo, o que fazer? Liberais dominantes nos dizem que, quando os valores básicos da democracia são ameaçados por fundamentalistas étnicos ou religiosos, temos todos de nos unir numa agenda liberal-democrática de tolerância cultural, salvar o que possa ser salvo e deixar de lado todos os sonhos de transformação social mais radical. Nossa tarefa, dizem eles, é clara: temos de escolher entre a liberdade liberal e a opressão fundamentalista.
Porém, quando nos fazem, em tom triunfalista, perguntas (exclusivamente retóricas!) como “Você deseja que as mulheres sejam excluídas da vida pública?” ou “Você deseja que todos os que critiquem a religião sejam condenados à morte?”, o que mais nos deve fazer desconfiar da pergunta é a obviedade da resposta.

O problema aí é que esse universalismo liberal simplório já perdeu a inocência, há muito tempo. O conflito entre a permissividade liberal e o fundamentalismo é, na verdade, um falso conflito – um círculo vicioso e viciado no qual os dois polos pressupõem-se e geram-se mutuamente, um o outro.

O que Max Horkheimer[5] disse sobre o fascismo e o capitalismo lá nos anos 1930s (que os que não querem falar criticamente sobre o capitalismo devem também calar sobre o fascismo) pode aplicar-se ao fundamentalismo de hoje: os que não querem falar criticamente sobre a democracia liberal devem também calar a boca sobre o fundamentalismo religioso.

Reagindo contra caracterizar-se o marxismo como “o Islã do século 20”, Jean-Pierre Taguieff escreveu que o Islã está em vias de mostrar-se como o “marxismo do século 20” para prolongar o violento anticapitalismo do comunismo, depois do declínio do comunismo.

Mas as recentes vicissitudes do fundamentalismo muçulmano confirmam, pode-se dizer, o antigo insight de Walter Benjamin, de que “cada ressurgimento do fascismo dá testemunho de uma revolução fracassada”. O crescimento do fascismo é, em outras palavras, o fracasso da esquerda e, simultaneamente, prova de que subsiste um potencial revolucionário, uma insatisfação, que a esquerda não é capaz de mobilizar. E não se pode dizer exatamente a mesma coisa do hoje chamado “islamo-fascismo”? O surgimento do islamismo radical não é perfeito correlato do desaparecimento da esquerda secular nos países muçulmanos?

Quando o Afeganistão é apresentado como país fundamentalista islamista “típico”, quem ainda lembra que, há 40 anos, foi o país de mais forte tradição secular, incluindo um poderoso Partido Comunista que chegou ao poder no Afeganistão, independente da União Soviética?

Esse é o contexto no qual se tem de compreender os recentes eventos na Bósnia. Numa das fotos dos protestos, veem-se os manifestantes exibindo três bandeiras lado a lado: da Bósnia, da Sérvia e da Croácia, mostrando o desejo de ignorar todas as diferenças étnicas. Para resumir, temos aqui uma rebelião contra elites nacionalistas: o povo da Bósnia afinal compreendeu quem é o seu verdadeiro inimigo: não outros grupos étnicos, mas os seus próprios “representantes” políticos que fingem protegê-los contra os demais. É como se o velho e tantas vezes mal usado lema titoísta[6] da “fraternidade e unidade” das nações iugoslavas ganhasse nova atualidade.

Um dos alvos dos manifestantes era o governo da União Europeia que supervisiona o estado bósnio, forçando a paz entre as três nações e oferecendo considerável ajuda financeira para ajudar no funcionamento do Estado. Pode parecer estranho, porque os objetivos dos manifestantes são, nominalmente, os mesmos objetivos de Bruxelas: prosperidade e o fim das tensões étnicas e da corrupção.

Contudo, o modo como a União Europeia realmente governa a Bósnia cria divisões: a União Europeia só vê, como suas parceiras privilegiadas, as elites nacionalistas, entre as quais faz uma mediação.

O que as explosões na Bósnia confirmam é que ninguém jamais conseguirá superar paixões étnicas impondo a elas uma agenda liberal: o que uniu os manifestantes foi uma mesma radical exigência de justiça.

O passo seguinte e mais difícil será organizar os protestos num novo movimento social que ignore as divisões étnicas; e organizar novos protestos – já imaginaram uma cena, com bósnios e sérvios furiosos, reunidos num comício conjunto, em Sarajevo?

Ainda que os protestos percam gradualmente a força, ainda assim permanecerão como uma fagulha de esperança, como soldados inimigos que se abraçavam nas trincheiras, na primeira guerra mundial. Eventos autenticamente emancipatórios sempre incluem ignorar identidades.

E vale o mesmo para a recente visita de duas representantes do movimento Pussy Riot a New York: num grande show de gala foram apresentadas por Madonna, na presença de Bob Geldof, Richard Gere, etc., toda a gangue dos direitos humanos de sempre. Deveriam ali, isso sim, manifestar solidariedade a Snowden, para mostrar que o Pussy Riot e Snowden são parte do mesmo movimento global. Sem esses gestos que aproximem o que, na nossa experiência ideológica diária, parecem ser coisas incompatíveis (muçulmanos, sérvios e croatas na Bósnia; secularistas turcos e muçulmanos anticapitalistas na Turquia, etc.), os movimentos de protesto sempre serão manipulados por alguma superpotência, em sua luta contra

http://revistaforum.com.br/blog/2014/02/zizek-ha-mais-do-que-furia-na-bosnia/

Gás do Xisto, por trás dos bastidores mais que a dúvida.

19 nov

Gás do Xisto, por trás dos bastidores mais que a dúvida.

A Agência Nacional do Petróleo –  ANP – anunciou a decisão de incluir o chamado “Gás de Xisto”, obtido por fraturamento da rocha (shale gas fracking), classificado como “gás não-convencional”, na licitação, realizada em outubro, tem como alvo campos de gás natural em bacias brasileiras, o leilão da 12ª Rodada está marcado para os dias 28 e 29 de novembro e ofertará 240 blocos exploratórios em sete bacias sedimentares, nos estados do Amazonas, Acre, Tocantins, Alagoas, Sergipe, Piauí, Mato Grosso, Goiás, Bahia, Maranhão, Paraná, São Paulo, em mais de 168 mil quilômetros quadrados.

O método para o extrair, apelidado de “fraturação”, é controverso. A exploração do Gás de Xisto, apesar do sucesso econômico apresentado principalmente pelos Estados Unidos como “a Revolução do Xisto”, tem sido muito questionada pelos riscos e danos ambientais envolvidos. Enquanto o gás natural e o petróleo ocorrem em rochas porosas ou fraturadas, o gás de xisto impregna toda uma rocha ou formação geológica impermeável.

A técnica utilizada é a perfuração horizontal, a três quilômetros de profundidade, chamada de fratura hidráulica, a extração é iniciada quando injetam nos tubos, a alta pressão, milhões de litros de água misturada com químicos, para puxar o gás de xisto das rochas em direção à superfície.

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  É preocupante os altíssimos volumes de água que resultam poluídos diversos compostos e metais presentes na rocha, nos explosivos e nos próprios aditivos químicos requeridos pela complexa atividade de mineração do gás, exigindo dispendiosas técnicas de purificação e de descarte dos resíduos finais. E ainda mais, o que será feito da água contaminada, haverá um tratamento específico para ela?

Existem claras evidências da penetração nas águas que se infiltram entre RS e SC,  além da presença de óleo antigo em fraturas do sistema Aquífero Serra Geral, essa impregnação que ocorre se mostra como um “vazamento” aéreo por dentro das rochas.

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O  Plano Decenal de Expansão de Energia – PDE 2012—2021, lançado

em janeiro, procura tirar partido da abundância de petróleo e gás natural encontrado no território nacional. No entanto o gás do xisto não é sequer citado no plano 2012-2021, a pergunta é por que tanta pressa na extração do gás, quais legislações protegem o meio ambiente, quais os impactos sociais que serão levados em conta, esses questões ainda não temos respostas.

Muitos desafios estão colocados, a continuidade da economia global altamente dependente do sistema energético, por sua vez exige uma regulamentação para seus tributos, e políticas aplicadas.

A água tem um papel fundamental no uso da extração do gás de xisto, e por ela ser contaminada, ela será reutilizada, mas até que ponto? E para onde vai essa água quando for descartada? Ela interferirá nas nascentes e fontes subterrâneas, certamente, ainda mais, e o acesso dos povos à água? Nenhuma legislação tratará disso após os leilões! Outra coisa, todo o xisto se encontra sobre os aquíferos …

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Soberania, a gente não se vê por aqui.

Referência Bibliográfica:

Este texto é uma adaptação dos seguintes artigos:

22 empresas mostraram interesse na 12ª rodada, diz ANP

http://g1.globo.com/economia/noticia/2013/10/22-empresas-mostraram-interesse-na-12-rodada-de-petroleo-diz-anp.html

O polémico, arriscado e lucrativo gás de xisto

http://pt.euronews.com/2012/11/02/o-polemico-arriscado-e-lucrativo-gas-de-xisto/

CEDES – CENTRO DE ESTUDOS E DEBATES ESTRATÉGICOS DA CÂMARA FEDERAL – Prof. Dr. Luiz Fernando Scheibe – Brasília, 05 de junho de 2013, no DIA MUNDIAL DO MEIO AMBIENTE

What is shale gas and why is it important?

http://www.eia.gov/energy_in_brief/article/about_shale_gas.cfm

Todos foram acessados em novembro de 2013, o artigo também foi adaptado na mesma data.

Marchan en Olinalá demandan liberación de policías comunitarios, clama mujer que regresen los rondines al pueblo.

29 out

Marcha dos policiais comunitários

Sergio Ferrer

Olinalá, 27 de octubre. Cientos de personas entre niñas, mujeres, hombres, marcharon en la cabecera municipal para conmemorar el primer aniversario del levantamiento armado del pueblo olinalteco en contra de la delincuencia organizada que mantuvo barricadas durante casi una semana en las entradas del poblado, exigiendo la libertad de Nestora Salgado y comunitarios presos.

Al evento que incluyó una misa y un acto público en el zócalo, acudieron indígenas nahuas de Temalacatzingo y Tlatlauquitepec, me´phaa de Ayutla de los Libres, n, así como policías comunitarios de Huamuxtitlań, Ayutla de los Libres, Atlixtac, Tixtla.

Dentro del contingente desfiló Valentina Rosendo Cantú, mujer que denunció la violación y tortura que cometieron militares en su contra y cuyo caso al igual que el de Inés, fue llevado ante al Corte Interamericana de Derechos Humanos por Tlachinolla, fincando la Corte responsabilidad al Estado Mexicano.

Rosendo Cantú, comentó en breve entrevista que apoya…

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Nota

Rsync sem slash com barra

29 out

Para usar o rsync há duas coisas a se atentar a primeira é o . que define o diretório atual a ser executado. A segunda preocupação é a Barra “/” que no final indica duas coisa por exemplo:

rsync /origem /destino

Copia a pasta origem dentro de destino.

rsync /origem/ /destino/

Copia o conteúdo de dentro de origem dentro da pasta destino.

 

Xingu SA

16 out

Xingu SA

Ouvem-se muitas histórias de regiões inteiras do mundo atrasadas por falta de recurso financeiro. Cria-se uma série de programas sociais, supostamente para a classe rica ajudar a classe pobre. É antiga a questão mundial entre o Norte e o Sul. E sempre se apresenta o dinheiro como a solução definitiva de todos os problemas, ainda que, por trás dele, haja intenções inconfessas.

Mas é interessante! Aqui na Amazônia, há situações em que ocorre o contrário. Indígenas estão sendo estraçalhados por ‘excesso’ de dinheiro. As fontes podem secar ou não da noite para o dia a bel prazer da Norte Energia, colocada como a dona de Belo Monte, e do governo. Os nativos não têm o controle dos cifrões. E uma cidade inteira está em agonia, impactada pelo volume financeiro de Belo Monte advindo da mercantilização do Xingu.

Esse é um elemento curioso! Já não é mais suficiente dizer que o erro está no fato de nossa riqueza ir embora em forma de remessas ao capital imperialista, materializado em transnacionais privadas ou estatais: Eletrobrás, Eletronorte, Chesf, Neoenergia, Vale, Cemig, os gigantes donos de Belo Monte. Pois os vinténs que ficam, controlados por uma estrutura política totalmente viciada, não se traduzem em políticas públicos a benefício do povo e da classe trabalhadora.

Essa estrutura de organização capitalista de sociedade, cujo motor é a exploração, gera pessoas-monstros miseravelmente ricas; são tão pobres, mas tão pobres de valores humanitários, que fazem tudo pelo dinheiro, e se comportam como macaco em casa de louça (sem querer ofendê-lo), quebrando tudo pela força bruta do poder.

Vitória do Xingu, município-sede de Belo Monte, é um caso típico, e virou um canteiro de obras! A cidade, que tem cerca de sete mil habitantes e um ISS – Imposto Sobre Serviços – próximo de dez milhões/mês, está com as ruas, todas, reviradas. A poeira toma conta nesse verão. Mesmo que se jogue água, tudo seca rapidamente com o calor intenso, trazendo complicações respiratórias, em especial para idosos e crianças. E não é fácil encontrar uma ficha para consulta médica.

Antes o sofrimento em Vitória fora o inverno. O lamaçal se agravara com a remoção do calçamento das ruas – ainda bom -, e da terra arenosa para colocação de argila, própria para receber o asfalto, que não veio até hoje. A promessa é de asfaltamento de toda a cidade. Por enquanto tudo são buracos e terra nua.

Uma conhecida nossa, que se mudara de São Paulo para Vitória, em março de 2013, contara o ‘seu’ caso, ao mesmo tempo exótico e dramático. Ela passava pela rua, desviando-se aqui e ali de um buraco, de uma lama; ia ao bairro Santa Clara, onde sua casa estava em construção. De repente, desequilibrara-se, ficara atolada no meio da rua, até o joelho. Jamais pensara que ali fosse assim tão fundo.

O jeito fora pedir socorro. Um senhor, que passava numa trilha firme, na rua próxima, ouviu os seus gritos. Ele ia de bicicleta. Ficara em dúvida, seguira adiante, mas logo resolvera voltar, vendo-a naquele estado lastimável. Tirara, então, o sapato, que estava limpinho, e se metera na lama, arrastando a mulher do atoleiro.

A parte central da cidade tem verdadeiras crateras. Estão furando tudo, e colocando manilhas enormes para rede pluvial. A rede de abastecimento de água, também em construção, foi testada, os canos não suportaram a pressão e se romperam, e os serviços agora estão parados. Os canos de rede de esgoto são mais finos, e há dúvida se suportarão. Não se sabe, também, se o esgoto será tratado, conforme promessa, ou apenas lançado ‘in natura’ no rio. O sal dos dejetos humanos corrói as turbinas da barragem, e lhe diminui a vida útil, mas Vitória está abaixo do muro de Belo Monte e, isso, deixa os construtores da barragem numa posição tranqüila.

O barulho das máquinas pesadas é ensurdecedor. Bem à frente da casa onde Pedro, também conhecido, esteve hospedado, uma retro-escavadeira na rua fura um rasgão. Ele disse que foi obrigado a passar da sala para a cozinha, nos fundos. Não resolveu! Ao barulho, juntam-se as batidas fortes no chão seco, fazendo o computador tremer em cima da mesa. Pior, disse, foi o rolo logo após, compactando; o vidro da janela tremia todo, parecia que a casa viria a baixo.

A intensidade da ‘zuada’ constante dói os miolos. Quando a máquina dá ré, solta apitos finos e estridentes. A retro-escavadeira, com aquela munheca grande, e forte, fuça o chão, dando aqueles arrancos, com seus pés fincados em área firme e, enchendo a pá de terra, despeja tudo de uma só vez na caçamba do caminhão, cujo impacto provoca uma espécie de estrondo. A poeira sobe e espalha-se, alta e densa, encobrindo a visão.

Nas ruas vicinais, todas mexidas e remexidas, além da poeira no verão ou da lama no inverso, o compactador, um grande rolo que passa algumas dezenas de vezes no mesmo local, vem causando rachaduras nas casas. Marinalva conta que já se pode enfiar o dedo nos buracos da parede de sua morada.

Funcionários da empresa terceirizada da Norte Energia fotografaram tudo antes do início das intervenções, há mais de um ano, supostamente para comprobação de possíveis danos, e reparos ou indenização. Mas agora, quando alguém reclama, eles apenas dizem que foi a outra empresa. Algumas famílias, já impacientes, estão consertando por conta própria.

Uma jovem questionara a razão pela qual a intervenção está sendo feita na cidade toda ao mesmo tempo. ‘Não seria melhor terminar um bairro, e, depois, começar  outro’? Mas a empresa, entre o desdém e a displicência, apenas disse: ‘fizemos assim em outra cidade, mexendo em tudo de uma só vez, e deu certo’. A jovem ficara em silêncio. Muitos se calam por completo, pois percebem o descaso! Por dentro, porém, ela se contorcia.

Parece, de fato, não haver um planejamento do ponto de vista técnico. Na barragem é tudo calculado, tim-tim por tim-tim, a tempo e a hora, e, ali, é como um experimento. Vitória é cobaia! Muitos serviços feitos, e desfeitos com as chuvas do inverno, já foram refeitos mais de uma vez. Muita terra foi carreada para o igarapé Facão, um crime ambiental. Existem áreas de lazer, umas muito próximas a outras, com equipamentos exóticos que, provavelmente, jamais serão usados por gente do povo.

A empresa parece não se importar com isso. É preciso entender a sua lógica. Por um lado ela faz a obra apressadamente, pois, assim, terá mais dinheiro em menos tempo. Ainda mais que ela tem frentes de serviço em diversas regiões do Brasil.  Por outro lado, refazer serviço – o que seria um desperdício – e demorar com a obra – o que seria prolongar o transtorno – não é problema para a empresa; ao contrário, é até uma forma de mostrar um grande volume de trabalho e justificar a dinheirama gasta. Quanto às notas, frias ou quentes, é só uma questão de formalidade.

Diversos outros problemas vão aparecendo junto desse caos chamado progresso. Uma cidade antes pacata já não consegue ter paz. Duzentos reais que Clotilde levara na carteira para possíveis gastos em sua estadia em Vitória, e sua viagem de volta a Altamira, escafederam-se. Suas colegas desconfiam de um rapaz; elas deram razão de sobra para a desconfiança, mas não têm uma prova material. O fato é que as famílias já não têm mais o sossego de outrora, dormindo com janela e porta abertas. Quando saem, trancam tudo.

Cada espaço público já construído ou em construção na cidade tem três vigias, que revezam. Somam, ao todo, cerca de 200 vigias contratados numa cidade tão pequena. Chico pensa que o Prefeito se aproveita desse clima de insegurança para garantir emprego, cumprindo, assim, uma de suas promessas de campanha. E perpetuando-se no poder.

Lena, que alimenta um verdadeiro ódio contra a barragem, quase um fanatismo, sofre náuseas quando o dever lhe impõe o uso do tele-centro (público). Somente ali a internet tem sinal bom.

Sua raiva tem um viés familiar: o irmão dela perdeu a vista na barragem. Ele trabalhara lá. Num dia, estava no ônibus, e o pó de brita da estrada lhe penetrara a vista. Como ardia muito, procurara o médico da Norte Energia, que lhe receitara um colírio, e lhe dissera que poderia continuar trabalhando. Isso foi a desgraça dele! Passados quarenta dias, com o olho doendo, resolvera voltar ao médico, que o encaminhara para outro em Altamira e constatara uma úlcera dentro do olho esquerdo. Sua vista estava perdida.

Seu irmão fora afastado do serviço, e recebe uma espécie de pensão da empresa. A solução é o transplante do olho, mas fica muito caro, e a Norte Energia não assume.

O espaço do tele-centro, em Vitória, é todo controlado pela Norte Energia. À frente do prédio está escrito em letras grandes: ‘Balcão de informações – usina hidrelétrica Belo Monte’. A porta fica fechada. Abrindo-a, a pessoa dá de cara com um segurança. Do lado esquerdo, acha-se uma moça com ar de secretária atrás de um computador.  O estômago de Lena revira por dentro cada vez que vai lá. Mas não tem outra opção.

Sempre mais a Norte Energia faz de suas obrigações legais um instrumento de dominação dos gestores públicos – através de uma e outra obra – e das famílias – através do emprego, ainda que precário e temporário.

As autoridades e a Norte Energia fazem gracinha. As festas se multiplicaram. Distribuíram-se Tabletes e Notebooks para estudantes e professores. Cada vereador ganhou uma Hilux, com fornecimento de mil litros de combustível/mês.  A Prefeitura deu um desconto no ISS. Essas mordomias evidenciam que o Município nada em dinheiro, como se tivesse ganho na loteria. Essa dinheirama, porém, não tem significado melhora na qualidade de vida do povo.

A falta de recursos deixa muita gente à míngua no Brasil e no mundo. Altamira, situada no remanso do futuro lago de Belo Monte, reclama, com razão, do não cumprimento de condicionantes, em especial as estruturantes. Vitória do Xingu, ao contrário, tem um ‘excesso’ de recursos, que redunda em obras, mas que não se materializam em benefício real à população.

Aqui há uma verdade escancarada: a evolução de um povo não é uma questão de dinheiro e, muito menos, de obras feitas a deus dará, por formalidade.

A situação das populações ribeirinhas ainda é pior. Boa parte das casas são palafitas, às margens dos igarapés Gelo e Facão, somando quase três centenas de famílias. Corre boato de que serão todas desalojadas para construção de cais. Uma empresa terceirizada passou, cadastrou os moradores, mediu tudo, mas não conversou nem fez reunião com ninguém.

O boato da realocação divide as pessoas, e as deixa inseguras. Algumas ficam seduzidas com o sonho de uma nova casa, e com a cidade linda, rodeada pelo cais. Outras ficam vivamente chateadas, pois gostam da vida ali, ainda que precária.

O pior de tudo, porém, é a falta de informação. Uma arrogância, de quem pensa que o ‘técnico’ é que entende de obras, e que o povo não tem nada a contribuir. Enquanto tudo é boato, a vida fica parada, não se faz um puxado, não se constrói uma varanda, não se coloca uma pintura nova… O futuro é incerto!

Dona Graça mora à beira do Facão. Enquanto lava a roupa, num sábado de manhã, dentro do igarapé, com água até o joelho, vai contando a sua história. Foi pescadora, hoje já se aposentou por idade. Seu marido ainda exerce a profissão. Ela afirma com ar indignado:

‘A empresa diz que a barragem não interfere na vida do pescador. Ela não reconhece ninguém abaixo do muro. Mas é claro que interfere! O peixe diminuiu! A canoa vinha até aqui – apontando com o dedo. Agora é o que estas vendo. A terra da rua escavada desceu tudo para o rio. O igarapé virou um filete de água’.

Carla, que fora visitá-la, e ouvia a sua história, olhou para um lado, para outro, era mesmo tudo verdade. Perguntou-lhe se poderia tirar uma foto. Carla pensava que era importante registrar o que ela relatava. Aquele filete de água correndo, ela com a bacia cheia de roupa, as marcas da enxurrada da rua e a areia, cobrindo tudo.

‘Pode tirar foto sim! O que falei é tudo provado. O pessoal aqui tomava até banho no igarapé. Agora é só terra. Se a empresa quer construir cais aqui, tem que olhar o nosso lado. Aqui a gente está instalada, tem morada. Sair sem rumo não tem jeito’.

Dona Graça, na sua simplicidade e idade bem avançada, é uma mulher decidida.

Carla tirou a máquina da sacola, bateu a foto, e ainda a ouviu por uns instantes. Depois se despediu, apertando-lhe a mão. Ela abriu um sorriso, e disse:

– Volte depois!

– Vou voltar sim, em meados de outubro.

Enquanto ia passando pela areia, rumo à rua, já olhava o calendário. Pois a organização do povo somente caminha dentro de um processo. No mínimo, pensava Carla, precisamos buscar todas as informações e repassá-las às famílias. Informação também é poder.

Não é que Carla se admirasse do que as pessoas enxergam e sentem em Vitória. Apenas fica indignada, com a confirmação de que o desrespeito aos atingidos não é um caso isolado. Há um padrão de agressão aos direitos humanos, já reconhecido mas ainda não assumido pelo Estado brasileiro.

As mesmas promessas mirabolantes em Altamira também ocorrem ali, em Vitória do Xingu. Mas o certo é que tanto o descumprimento das condicionantes em Altamira quanto o ‘cumprimento’ em Vitória não têm incidido na melhora da qualidade de vida do povo. Pode ser mesmo que Vitória fique linda, como costumam dizer, mas com uma população sem garantia efetiva das políticas públicas elementares. Embelezam-se artificialmente as coisas, mas as pessoas ficam de lado.

Mas essa gente simples, em seus casebres e palafitas, não perde o humor. Com tantos buracos na cidade, estão apelidando o Prefeito de tatu de bigode. Não é fácil consumir 10 milhões/mês. E a questão é que esse dinheiro vai aumentar. Quando da sua operação, a partir do início de 2015 – se a barragem realmente seguir em frente -, a maior parte dos royalties de Belo Monte vai ficar na Prefeitura de Vitória. Não é sem razão que uma vaga no legislativo local, e no executivo, é disputada quase a tapa.

Belo Monte é um crime, cujas obras se iniciaram com uma licença parcial e com uma prepotência arrogante, numa ditadura econômica cacifada com dinheiro público pelo governo federal.

O mau exemplo se espalha como rastilho de pólvora. É de se prever o aumento significativo da corrupção em municípios, como Vitória, onde os gestores públicos terão que inventar formas para gastar todo o dinheiro. E não faltará criatividade! Ainda que as campanhas eleitorais acaloradas e as administrações quentes passem pelas notas frias turbinadas na energia do Xingu SA.

 

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Ignacio Ramonet: La información es una mercancía gratuita

2 out

Ignacio Ramonet: La información es una mercancía gratuita.

 

Ignacio Ramonet*: La información es una mercancía gratuita**

Yo dije esta mañana en el Aula Magna (de la Universidad de La Habana) dos o tres ideas acerca de cómo funciona el sistema mediático.

Lo que planteaban aquí ahora mismo el Comandante y Abel (ex ministro de Cultura de Cuba), es esta idea de que cuando tenemos una realidad tan fuerte con todos los datos que ha dado Zuleica, tan interesantes, ¿por qué finalmente esos datos o ese análisis no se publican?

Creo que es interesante tener una idea de cómo funciona el sistema mediático —de una manera muy esquemática, no quiero hacer una conferencia aquí. Dos o tres notas simplemente.

Primero, hay que partir del principio de que hoy día, en el sistema mediático, la información funciona como una mercancía. La información es una mercancía, es algo que sabemos, pero, ¿qué significa que es una mercancía?, porque es una mercancía algo particular, en la medida en que es una mercancía gratuita. La mayoría de nosotros cuando consumimos información por la radio o por la televisión, pues no pagamos por ella; y, por otra parte también, ahora existen muchos periódicos gratuitos y tampoco se paga por esa información en la prensa escrita, y en Internet la mayoría de los sitios de información son igualmente gratuitos.

Entonces, digamos, ¿cómo es que el sistema, que tan preocupado siempre está de beneficios, hace que en la circulación de la información, la información sea gratuita? Es gratuita, por la razón siguiente: porque nosotros pensamos que el comercio de la información consiste en vender información a la gente, y evidentemente así no salen las cuentas; porque si lo vendo gratuito, es decir, si regalo la información no gano nada. En realidad, el mecanismo del comercio de la información no consiste en vender información a la gente, consiste en vender gente a los anunciantes.

Nosotros cuando consumimos la información somos vendidos a los anunciantes. ¿Y qué significa eso? ¿Qué significado tiene desde el punto de vista ontológico, desde el fondo del contenido? Significa lo siguiente, la empresa que nos va a vender a los anunciantes tiene interés en que la gente que va a consumir esa información sea la más numerosa posible, es decir, cuanto más numerosa sea, más caro va a vender ese grupo de gente al anunciante, y para que sea muy importante ese número, el nivel de la información va a ser muy superficial. Esta es la ecuación, si se quiere: La información se va a hacer primero en una lengua muy reducida. Por ejemplo, el castellano es una lengua que tiene más de 40.000 vocablos; pero la información de amplia circulación se escribe con unos 600 a 800 vocablos, es decir, es un español fundamental, digamos, reducido a su mínima expresión.

Segundo, cualquier información, cualquiera que sea, siempre es una información sofisticada, compleja, con matices, etcétera.

El sistema de información dominante es un sistema de información maniqueo, es decir, hay buenos y malos y, por consiguiente, en dos términos, muy elemental, de manera que cualquier desarrollo que se pueda hacer sea muy corto, muy breve, y que cualquiera lo pueda entender y, por consiguiente, se suprime todo tipo de matiz, y también, evidentemente, se va a insistir en el aspecto emocional —que es el que habla la gente— y no tanto en el sistema racional que supone la percepción de conceptos y de abstracción. En ese sentido, una noticia de gran información no debe ser abstracta y conceptual, sino que debe ser concreta y emocional. Ese es un aspecto. El hecho de que la información sea una mercancía, ya ven ustedes las consecuencias que está teniendo.

Sin dinero para investigar

La segunda consecuencia importante es que si una empresa va a regalar la información, es obvio que esa empresa no va a gastar mucho dinero para producirla, puesto que la va a regalar.

Entonces, la producción de la información, es decir, la encuesta, el trabajo que hay que hacer río arriba para encontrar la información, buscarla, ir más allá de las apariencias para tratar de descubrir dónde se encuentra esa información, pagarle a un equipo de periodistas para que haga una investigación durante meses, eso la empresa no lo hará, o lo hará cada vez menos en la medida en que va a regalar esa información, repito.

También, por esa segunda razón, el nivel de la información será, evidentemente, reducido, el nivel de la información se va a rebajar. Este es el sistema en el que estamos, e Internet ha venido a agravar la crisis en el sentido económico de la información; es decir, hoy día en el mundo la mayoría de los grupos mediáticos están en crisis, tienen sectores, en particular, el de la prensa escrita, donde pierden dinero y, por consiguiente, tampoco es el momento de producir una información de alta calidad.

La información es materia prima

Otra cuestión es que a pesar de lo que acabo de decir, de que la información es una información que funciona como una mercancía, es decir, funciona según las leyes de la oferta y la demanda, no funciona según las leyes de la comunicación y de la información. No se trata, efectivamente, de responder a las interrogantes qué se puede y se debe hacer en materia de periodismo exigente, sino que, sencillamente, se trata de responder a una supuesta demanda; pero a pesar de que circula como una mercancía, en realidad hoy la información es una materia prima, funciona exactamente como una materia prima, en el sentido amplio de la palabra.

¿Por qué es una materia prima? Una materia prima en el sentido de que las grandes empresas de información hoy son las que más dinero están ganando. Hoy día, digamos, si tomamos los últimos 15 años, las grandes empresas, las nuevas grandes empresas, las que han acumulado un capital bursátil excepcionalmente elevado, ¿a qué sector pertenecen? Pertenecen al sector de Internet.

Miren, la entrada en bolsa de Facebook se hace a la altura de 15.000 millones de dólares. Cuando Google entró hace apenas tres años, entró a una altura de 4.000 millones de dólares; pero también las empresas telefónicas o las empresas de informática. Es decir, para todas esas empresas, para Facebook, para Twitter, para Google, para las grandes empresas telefónicas internacionales, para las empresas de informática, por ejemplo, Apple, todas estas empresas, en realidad el contenido les importa poco, el sentido del contenido les importa poco, lo que les interesa es la cantidad. Es decir, lo que le interesa a una empresa telefónica no es si usted va a trasmitir un secreto de Estado en su comunicación telefónica, eso le puede interesar a la CIA; lo que le interesa a la empresa telefónica es que usted telefonee mucho y que mande muchos mensajes por teléfono. Cuantos más mensajes usted mande por teléfono de todo tipo, mensajes escritos, mensajes sonoros, mensajes icónicos, con imágenes, con videos, más dinero va a ganar la empresa. Cuanto más comunicación, en el sentido amplio de la palabra, más dinero ganará la empresa. En ese sentido la información es una materia prima, y una materia prima estratégica en la medida en que es la que permite enriquecimientos superiores a los que permiten algunas materias primas realmente estratégicas como el petróleo, el gas o el uranio, etcétera. Estas empresas pueden ganar más dinero simplemente con nuestras llamadas.

Este es el universo de la comunicación en el que, evidentemente, los grupos mediáticos hoy tienen tendencias a organizarse mediante el sistema de concentración bien conocido. Si antes se especializaban en un solo sector de la comunicación, digamos, por ejemplo, la comunicación escrita, ahora, gracias a Internet que ha roto las barreras técnicas entre los diferentes sistemas de comunicación, los grupos van a acumular comunicación escrita, comunicación oral, comunicación visual, comunicación audiovisual, e Internet, evidentemente. Entonces, los grandes grupos están dominando este sector mediante la concentración.

Final del pluralismo

Quien dice concentración en comunicación e información, está diciendo automáticamente final del pluralismo o dificultad del pluralismo. Donde antes había muchos grupos mediáticos o muchos polos mediáticos, ahora hay menos porque se han concentrado, y en algunos países —tomo el ejemplo de Francia, sencillamente—, toda la comunicación dominante: prensa, radio, televisión, Internet, pertenece a unos cuantos hombres de negocios —casi siempre hombres; podrían ser mujeres—, casi todos ligados, o bien al sector financiero o bien al sector de la información telefónica, informática, etcétera, y los contamos con los dedos de una mano, en un país como Francia, un gran país democrático y productor de cultura; o sea, el fenómeno de la concentración con la crisis, además, se está agravando.

Por otra parte también hoy, precisamente en el marco de la globalización, ¿cómo funciona la comunicación en el marco de la globalización? ¿La globalización qué es? Esencialmente, un fenómeno que evidentemente acarrea otros más —y estoy hablando ante todos ustedes que saben perfectamente cómo es, simplemente lo recuerdo, la globalización es un fenómeno esencialmente financiero y basado en el hecho de que desde hace unos años se ha dado la libertad al dinero de circular sin ningún tipo de trabas. El dinero es lo que circula sin trabas, y a partir de ese fenómeno se ha ido acumulando la idea de que precisamente el poder económico es el primer poder, y en el seno del poder económico el poder financiero, que es el que produce mayor riqueza objetiva y material en el mundo.

¿Y el poder mediático, entonces? ¿Qué papel tiene el poder mediático en el sistema de la globalización? Ahí digo yo que el poder mediático en la globalización solo se puede concebir como el gemelo del poder financiero. ¿Por qué? Porque el poder mediático tiene la función, en la globalización, de decirles a los ciudadanos, ciudadanas que soportan la globalización que, en realidad, están viviendo en el mejor de los mundos posibles. Para decirlo de otra manera: el poder mediático funciona como el aparato ideológico de la globalización. Es decir, la globalización es un fenómeno material y concreto, pero necesita de la pasividad cómplice, en cierta medida, de la ciudadanía. ¿Y quién tiene la misión de apaciguar, de domesticar a las sociedades? El aparato mediático.

¿Qué es aparato ideológico?

Yo esta mañana daba un ejemplo con una comparación, las comparaciones nunca son exactas, pero yo decía: ¿Qué se entiende por aparato ideológico? Por ejemplo, estamos en América, imaginemos el momento de la conquista. ¿La conquista qué es? Ante todo, una empresa de violencia, una empresa de destrucción: destrucción de culturas, destrucción de pueblos, destrucción de religiones, destrucción de lenguas, destrucción de jerarquías sociales. Esa maquinaria de destrucción, evidentemente, funcionaría suscitando una mayor resistencia si solo fuera una empresa de destrucción; pero, en realidad, esa empresa de conquista iba acompañada por un aparato ideológico que tenía como misión decirles a las víctimas de la conquista que, en realidad, lo que les ocurría era lo mejor que les podía ocurrir. ¿Quién tenía esa misión? Pues, efectivamente, en este caso, la Iglesia Católica, los evangelizadores. Los evangelizadores decían a las víctimas de la conquista: «Usted ha perdido su religión, ha perdido sus tradiciones, ha perdido sus referencias culturales, pero ha ganado la gloria, porque ha encontrado al verdadero Dios». ¿De acuerdo?

Pues, globalmente el aparato mediático tiene hoy para nosotros la misma función. En este momento, en Grecia, hay una huelga general, es la enésima huelga general contra las políticas de austeridad y de ajuste, de brutalidad social que se están llevando a cabo en muchos países de Europa. Y el poder mediático, ligado al poder financiero, autor de golpes de Estado financieros —como ustedes han visto en Italia y en Grecia, donde precisamente el Primer Ministro ha sido puesto por la banca en su puesto de Primer Ministro— les dicen a los griegos: «En realidad hay que hacer esto de buena gana, hay que sacrificarse, porque ese sacrificio significa el ganar por fin una situación de nuevo arranque, que va a permitir salvar al país». Estamos entonces ante una situación en la que el poder financiero y el poder mediático funcionan como unos gemelos dominantes en la sociedad.

Y ustedes dirán: ¿Y el poder político? En la jerarquización de los poderes hoy, el poder político está en tercer lugar; es decir, que en el marco de la globalización el poder financiero y el poder mediático dominan al poder político.

Varios ejemplos: si ustedes en Europa hoy día se pasean de un país a otro, verán que la mayoría de los medios critican ferozmente, a veces, a los dirigentes, en cualquier país. Si usted va a Portugal, critican al Primer Ministro portugués; en España, al Primer Ministro español; en Francia, al Presidente francés, etcétera, y eso no era así antes.

Entonces, la pregunta es: «Oiga, ¿los medios hoy tienen más libertades que antes?, porque en realidad no están teniendo reticencias al criticar a los dirigentes políticos». Pues la respuesta ahí también es no, los medios no tienen más libertad que antes, lo que ocurre es que los dirigentes políticos tienen menos poder que antes, y, evidentemente, los medios hoy día se aprovechan del debilitamiento del poder político, de la ausencia de voluntad política para atacar en nombre de los objetivos que se fija el poder financiero.

Hacia un quinto poder

Y terminaré diciendo que hay una crisis hoy del «cuarto poder». Antes se llamaba el «cuarto poder» a la prensa, efectivamente, una democracia moderna no se concibe sin un cuarto poder. Hay un poder legislativo, un poder ejecutivo, un poder judicial y, evidentemente, está la opinión pública que permitía corregir los excesos del poder judicial, o del poder legislativo, o del poder ejecutivo. Desde que se inventó la prensa de masas, los medios de masas, a finales del siglo XIX, la opinión pública es un actor muy importante en democracia moderna. Es imposible pensar en el funcionamiento de una democracia moderna sin una opinión pública que haga contrapeso. Pero ya no hay ese contrapeso en la medida en que la opinión pública está fabricada por los grandes grupos mediáticos más que nunca y, por consiguiente, no hay una opinión pública, digamos, objetiva. Y opino que es el momento —y lo he propuesto en varios textos míos, en particular en el Foro Social Mundial—, que se cree un quinto poder, que es la posibilidad que nos da Internet hoy día, o las redes sociales, a cada uno de nosotros de construir nuestra propia información, participar en la propia elaboración de la información como nunca hemos tenido la ocasión de hacerlo, aunque no creemos en la democratización general de la información, pero hoy disponemos de herramientas que nos permiten intervenir, que nos permiten modificar, que nos permiten en todo caso dar una opinión ya no solo pasiva, interna, sino participando a nivel general, y nos permite, precisamente, erigirnos como ciudadanos, como quinto poder capaz de hacer contrapeso a ese superpoder que se ha constituido recientemente.

Esto es lo que dije, Comandante (Aplausos).

*Tomado del libro Nuestro deber el luchar (diálogo entre Fidel Castro Ruz y un grupo de intelectuales en La Habana en febrero de este año.

**El título y los subtítulos son del semanario Aquí

Vídeo

Como Acabar com uma comunidade de 140 anos em 15 dias?

19 set

 

Ayua y energya no son mercancias!

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Encontro Nacional dos Atingidos e Atingidas por Barragens

17 set

1º Encontro Nacional dos atingidos

Quanto vale um índio

20 ago

Notícias

Quanto vale um índio?

22/03/2013

Autor: Willian Vieira

Fonte: Carta Capital – http://www.cartacapital.com.br/

Sem intervenção pública, as compensações financeiras da usina de Belo Monte desagregam as aldeias da região

Por Willian Vieira

Para ir de Altamira à aldeia Paquiçamba são duas horas de caminhonete por uma rota lamacenta que só ganha asfalto quando ladeada pelos canteiros da usina de Belo Monte. De barco levaria oito horas. Graças a uma carona, após oito dias na cidade, Marino Juruna é recebido por seus índios. Em silêncio. Traz em seu poder só um galão de gasolina. Nada de material de construção, nenhuma notícia de avanço nas negociações pela ansiada indenização da Norte Energia. “A aldeia não é mais a mesma”, diz o cacique, enquanto abre a janela da recém-construída casa com cinco cômodos, sofá e televisão e aponta para as antenas parabólicas e telhados que desalojaram li palha dos casebres. Poços artesianos, um engenho de farinha e placas de energia solar surgem no horizonte, tudo comprado com recursos do consórcio construtor da usina. Os últimos quilômetros da estrada, antes intrafegáveis, ganharam uma cobertura de pedra, obtida na marra” após bloqueio no canteiro, diz Juruna. “É o lado bom da coisa. E eles não dão nem metade do que agente pede.”

Das palavras do cacique emerge um dos maiores efeitos da obra: um jogo de negociações entre indígenas e empresas, fruto de um modus operandi duvidoso e da ausência da Funai, que transformaram Paquiçamba, uma das poucas comunidades diretamente afetadas, no retrato fiel do impacto cultural e socioeconômico de Belo Monte. A aldeia não é mais a mesma”, repete Juruna. Até o começo de 2011, quando a obra começou, havia 37 famílias sob sua liderança. Hoje são nove. As outras se dividiram em três novas aldeias, cada qual com seu cacique. “Esses recursos causaram desunião. Muitos pensam que a liderança está desviando recursos, ouvem que a outra aldeia tem mais objetos, que podemos conseguir mais.” Juruna suspira. “Já botei meu cargo à disposição. Ninguém quer.”

O caso não é único. Foram criadas 15 aldeias em dois anos. As 19 existentes em 2010 viraram 34 em 2012. Outras estão prestes a nascer. Uma “proliferação de aldeias” que o indigenista Antonio Carlos Magalhães atribui ao Programa Emergencial, acordo assinado entre a Funai e a Norte Energia, em 2010, para fornecer compensações aos indígenas enquanto as medidas do Projeto Básico Ambiental (PRA), emaranhado de contrapartidas que vai de ações de desenvolvimento nas aldeias ao saneamento de Altamira, não estivessem prontas, mas que virou eufemismo para uma mesada de 30 mil reais paga aos índios por dois anos, até setembro de 2012.

O documento garante o ”fortalecimento institucional” da Funai, a “promoção do etnodesenvolvimento” e a “proteção das terras indígenas”. A fundação receberia infraestrutura, e os índios, “sem prejuízo de sua identidade”, participariam de reuniões, sem “a necessidade de estarem na cidade”.
O auxílio ao órgão público foi temporário.

As terras indígenas estão vulneráveis. E os índios, cada vez mais dependentes. Daí as lanchas seguirem rumo às aldeias com colchões, televisores c quinquilharias e voltarem para vendê-los por preços ínfimos. Como um escambo moderno, o processo “deslocou a atenção dos índios do questionamento sobre a barragem para o consumo”, diz Magalhães. As aldeias deixaram seus roçados e se acostumaram à dependência alimentar. Lideranças jovens passaram a criar aldeias de olho nos repasses. O resultado foi perda de identidade cultural.
Epicentro da construção da mais ambiciosa obra do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), Altamira, maior município brasileiro em extensão, virou um misto de balcão de negócios e ponto de peregrinação de índios em busca de demandas materiais. Em turnos, eles batem ponto no prédio da Funai, na sede do Ministério Público ou onde houver uma autoridade. Mas visitam, sobretudo, o número 1.482 da Avenida João Pessoa, à beira do Xingu, sede de um escritório da Norte Energia dedicado às “questões indígenas”. Nas paredes, fotos de índios. Nas cadeiras, índios sentados. São 30 atendimentos diários. A explicação é óbvia: o governo e o consórcio querem terminar a usina. Os índios, melhorar de vida. A Funai não tem estrutura para intermediar. Assim, as nebulosas negociações entre as partes seguem sua rotina.

“A gente fazia uma lista e entregava na Norte Energia. Aí buscava no escritório. Comida, combustível, motor”, diz José Carlos Arara, homem de expressão glacial e líder da aldeia Terrawagã. ”Eles prometeram 27 casas, pista, antena de celular. Nada.” Para chegar a Altamira e exigir seus “direitos”, Arara leva seis horas de barco e dorme em uma rede na Casa do índio, improvisado albergue para as diversas etnias. Como ele, dezenas dividem os quartos da casa. Alguns gastam dias de barco e vêm para estadias de quase um mês, quando fazem o périplo de sempre: compram mantimentos, participam de reuniões e passam horas no escritório da empresa. “Acabou o tempo da gente. Neste ano, não plantei um pé de mandioca, Essa é a vida do índio hoje.”

São 4 da tarde na sede da Funai em Altamira. índios mais velhos fumam tabaco em compridos cachimbos, enquanto jovens conversam em suas línguas, e crianças fogem do tédio com risadas. Dentro, em uma sala com ar-condicionado, está Estella Libardi de Souza, a coordenadora regional da fundação. “O fortalecimento institucional nunca ocorreu”, frisa. A ideia do termo seria fortalecer a Funai para que esta pudesse fiscalizar e tentar reduzir o impacto da obra. “O consórcio doou cinco voadeiras e vários carros e bancou a contratação de mais de 20 funcionários”, diz. Mas, com o fim do prazo, os empregados foram desligados. “Voltamos à estaca zero. Temos oito carros e só um motorista. E nenhum condutor para as lanchas.” Algumas aldeias distantes não recebem visita há um ano. “O plano previa postos de vigilância, bases para fiscalizar as terras. Hoje temos um funcionário para dar conta de 6 milhões de hectares” O Parecer Técnico 21, de 2009, que alertava para o impacto sobre os índios, foi ignorado por todos. “Disputas internas alimentadas por esses recursos estão esfacelando as comunidades”, diz a coordenadora. “Para a empresa, é mais barato dar dinheiro aos caciques do que investir em projetos.”

A leitura das atas das reuniões entre lideranças indígenas e a Norte Energiaé autoexplicativa. Em uma delas, de 31 de outubro de 2012, dias após a invasão do sítio Pimental, quando mais de cem índios paralisaram as obras para exigir o cumprimento das contrapartidas, o tom é de um leilão. Inês Marques, funcionária da empresa, apresenta “o cronograma de entrega dos kits de informática e voadeiras tratado nas reuniões de 9 e 10 de julho” índios exigem veículos. “Se eles não forem entregues, voltaremos à obra!” A funcionária pede desculpas e mais tempo. Os índios reivindicam a reforma da estrada, técnicos para operar os computadores doados, uma pista de pouso. A empresa promete rediscutir os pedidos na próxima reunião.

A promotora Thais Santi aponta para uma pequena área amarela no mapa da região do Xingu, na parede de sua sala, no Ministério Público Federal de Altamira. “Essa aldeia nem sequer tem estrada. Mas ganharam uma Hilux da Norte Energia, no nome de um índio sem habilitação, que bateu o carro em um poste, com crianças dentro, no carnaval.” Ela balança a cabeça. :’É um assistencia-íismo funesto que está acabando com a capacidade de reivindicação dos índios. Eles perderam a confiança na Funai e vão à empresa resolver as demandas. Quando não conseguem, invadem o canteiro ”

O Ministério Público investiga a situação patrimonial de algumas lideranças. Um índio chegou a sacar 100 mil reais na boca do caixa. Mas o que mais preocupa a promotora é um novo capítulo do processo, Aconselhadas por advogados, as comunidades criaram associações para gerir os recursos sozinhas e negociar diretamente com empresas a serviço da Norte Energia. ”São milhões de reais nas mãos dos índios”, alerta a promotora. “Houve um prejuízo para os índios qLie não tem volta. Precisamos agora proibir qualquer contato direto da empresa com os indígenas” Em última instância, diz Thais Santi, a responsabilidade é do Estado. “O dinheiro para a obra vem de um banco público. A obra é federal. Mas o governo não fez seu papel ” Belo Monte será a terceira maior hidrelétrica do mundo e custará 29 bilhões de reais, dos quais 22,5 bilhões via BNDES. É o maior empréstimo de sua história.

Cerca de 5 mil índios de dez etnias e graus diversos de contato com os brancos povoam a região do Médio Xingu. Muitos só voltaram a constituir aldeias nos anos 1990, em um processo que começou com as incursões evangelizadoras no século XVII, seguiu com a invasão de seringueiros cem anos atrás e ganhou força com a Rodovia Transamazônica. Com Belo Monte, o último boom emergiu. Sua genealogia remonta aos anos 1970, quando a ditadura quis construir uma série de megalomaníacas hidrelétricas na região do Rio Xingu. Os estudos de viabilidade atravessaram os anos 1990, a Eletrobras aliou-se à Eletronorte e, em 2005, o Congresso autorizou o Executivo a erguer Belo Monte, em troca de contrapartidas ambientais. Isso antes de as consultas aos índios darem resultado, apontam alguns críticos. “O que deveria ter sido feito é a realização de consultas prévias e o respeito do governo aos direitos indígenas, em vez de jogá-los como reféns das empresas”, afirma o antropólogo Stephen Baines, da UnB.

Em 2007, o governo incluiu a obra no PAC e buscou derrubar na Justiça os impedimentos à licença ambiental. Queria evitar o desabastecimento em um país onde o consumo anual de energia crescia acima do PIB. Em 2009. o Ibama aceitou o EIA-RI-MA, o estudo de impacto. Para liberar a licença prévia, exigiu o cumprimento de 40 condicionantes. A licença foi dada em abril de 2010. E um consórcio formado por grandes empreiteiras, fundos de pensão e pela Eletrobras deu início às obras em 2011, embora parte das condicionantes esteja “em andamento”. A Norte Energia afirma que “a execução do PBA caminha na mesma velocidade das obras da usina”.

Especialistas em energia sustentam que, a despeito dos deslizes sociais, Belo Monte é uma obra importante para o desenvolvimento do País e uma opção ecologicamente mais defensável do que usinas térmicas a gás, óleo ou carvão. A hidrelétrica no Xingu terá capacidade instalada de 11.200 MW e energia assegurada de 4.600 M W médios. Foi projetada para não ter grandes reservatórios e funcionar a fio d’água, o que reduz o tamanho das áreas alagadas e o impacto ecológico, embora represente menor segurança de fornecimento: sem reservatório, não há como armazenar água para os períodos de seca. Uma vitória dos movimentos ambientais que não apaga a desastrada política de varejo com os índios.

Sob uma árvore à beira do Xingu, a poucos metros do escritório para “assuntos indígenas” da Norte Energia, três índios debatem. “Eles não vão enrolar a gente”, diz Cláudio Curuaia, da Associação dos índios Citadinos, que representa 200 moradores de áreas de risco a ser reassentados. Criada há pouco, a associação não entrou na partilha de benesses do consórcio. “Os índios das aldeias ganharam 21 picapes, lanchas com motor, computador e filmadora. E nós?” Curuaia aponta para uma Mitsubishi L200 em frente ao escritório. “Até o Léo arrumou carro no nome dele.”

Léo (Jair Xipaia) desce da caminhonete e senta em um boteco acompanhado de duas lideranças. Aos 26 anos, o líder da aldeia Cojomin é o mais presente nas reuniões com o consórcio. “Queremos só o que é nosso,” Ele vive na cidade, estuda Direito na faculdade, vai pouco à aldeia. “Quase perdi o cargo de cacique porque disseram que peguei o recurso e gastei. Rodrigo Valério de Souza, da aldeia Kwruatxe, teve menos sorte. “Perdi o cargo ontem.” A causa, diz, foram acusações incentivadas pelo consórcio. “Tinha coisas de que a gente precisava, gerador, lona, espingarda, então eu vendia o combustível e comprava. Daí foram falar mal de mim, eu não tava facilitando pra eles.” O colega interrompe. “A Nesa joga as pessoas umas contra as outras”, diz Kwazady Xipaia, 23 anos e expressão de ancião. “Se houve mau uso do recurso é porque não teve orientação. Teve aldeia que torrou os 30 mil em comida, o que ninguém diz é que essa lista foi só para calar o.s índios, Porque projetos de desenvolvimento, para dar autonomia, não teve. Nas visitas, os técnicos mostraram desenhos de engenhos, plantações. Nada aconteceu.”

Nas negociações sem registro formal, ocorridas no escritório da empresa e em visitas do consórcio diretamente nas aldeias, a tônica do processo é
menos clara e mais eficaz, diz Marcelo Salazar, coordenador técnico do Instituto Socioambiental (ISA). Salazar cruza as mãos e desfia a genealogia da negociação. “Ao perceber que os índios se organizavam, a empresa saiu distribuindo cesta básica.” Isso antes de o consórcio sair do papel. “Mas os índios ficaram espertos.” É quando teria entrado em ação a linha de frente da desagregação. Figuras ligadas a consultorias teriam sido contratadas para abordar as lideranças e debelar as demandas com dinheiro pequeno.

O nome que surge é Antenor Bastos. “Ele prometeu casas”, diz um cacique. “O Antenor vai dar pista”, diz outro. Juruna garante: “Ele vinha toda semana, dormia aqui. A lista de compras, eu levava direto pra ele”. Bastos, um senhor de seus 70 anos, foi “coordenador de assuntos indígenas” da Norte Energia até janeiro, quando “se afastou por problemas do coração” diz o assessor da empresa. “Ele dormia nas aldeias, comia com eles, era uma figura. Quando os índios invadiam, ligavam para o celular dele pra negociar. Ele entendia os índios. No lugar dele há agora um ex-funcionário da Funai.

Dias atrás, um suposto caso de espionagem tensionou ainda mais as relações. Segundo Antonia Melo, do Movimento Xingu Vivo para Sempre, um funcionário do consórcio foi flagrado em uma reunião da entidade com uma câmera escondida. Ele teria gravado um vídeo no qual afirmou receber 5 mil reais por mês para acompanhar as reuniões e relatá-las aos dirigentes da empresa. O consórcio nega.

É no último andar do prédio de concreto branco de três pavimentos bem guardado por seguranças e altas grades, sede local da Norte Energia, que o diretor de assuntos institucionais da empresa, João Pimentel, 1,94 metro e voz firme, chega com fartes apertos de mão. Pede para o gravador ser desligado. E dispara: “Os índios já custaram quase 80 milhões de reais”. O assessor de imprensa corrige: “Foram 97 milhões”. Pimentel elenca os feitos da empresa: a casa de apoio aos Caiapós, engenhos de farinha, poços, carros doados às prefeituras, a reforma na escola. E a mesada?

Pimentel franze o cenho. “Havia certa expectativa. A maneira de dar uma acalmada neles foi o plano emergencial” O executivo lembra o bloqueio dos Jurunas ao canteiro. Os índios afirmavam que as obras haviam toldado as águas e atrapalhado a pesca ornamental. Exigiam respostas e dinheiro. “Essa pesca é biopirataria”, diz. “Mas, enfim, fomos lá. A água não estava turva, mas pagamos a compensação. Eles ficaram felizes” E as obras continuaram. “Nós não somos uma mãezona” diz. “E que todos acham que o índio deve viver num outro mundo. Você foi às aldeias? Viu as parabólicas? As casas? Eles querem isso tanto quanto a gente”.

Belo Monte enfrenta outras pressões. Há dias a Justiça Federal, a pedido do MPF, determinou que a Norte Energia pode ser multada em 500 mil reais por dia, se não comprovar a adoção das medidas compensatórias. Dias depois, o Ibama a notificou com base em um parecer que constatou pendências na execução dos programas ambientais. A empresa não concluiu o cadastro das famílias afetadas, não fez as obras de saneamento, não, reassentou as comunidades desapropriadas, diz o documento. Por outro lado, na segunda-feira 18. a Justiça do Pará expediu um interdito proibitório contra o Movimento dos Atingidos por Barragens e o Movimento Xingu Vivo. Pela decisão, as entidades ficam proibidas de fazer qualquer ação qne interfira na obra. Enquanto a briga cresce na Justiça, as obras seguem. A primeira turbina deve entrar em funcionamento em 2015.

Alheio a tudo, imerso no calor sufocante de uma tarde de sol no meio da roça de mandioca, o ex-cacique Manoel Junina, 70 anos, segura sua enxada e sorri. “Esses cabras não querem trabalhar. Aí vem essa gente, dá um dinheirinho e bota tudo pra brigar. Vê se eu brigo com alguém?” Na casa do ancião, a cem metros da roça. a família discorda. “Antes, a gente se reunia, irmãos de aldeias diferentes, pra decidir como se posicionar”, diz Eliete Juruna. “Aí eles começaram a fazer reuniões com as lideranças em separado. Foi a estratégia da Norte Energia, dar dinheiro aqui e ali. E agente caiu. Estamos nas mãos deles.”

A Angola Brasileira

Há cerca de um ano os servidores da Polícia Federal de Altamira encaminharam um ofícío a chefia. Não seria possível viver na cidade se não fossem tomadas médicas urgentes. Ameaçavam até se exonerar. O documento, endossado pela associação do setor, chegou ao Ministério da Justiça e denunciava a”sitiação realmente crítica”. Não era de violência que reclamavam os funcionários, e sim do custo de vida. Apelidaca de “Angola Brasileira”, em referênca aos preços do país africano assolado pela doença do petróleo, Altamira sofre com Belo Monte.

Se antes da obra, até 2010, a cidade tinha 99 mil habitantes, hoje são 150 mil. Só nos canteros há 21 mil, de peões a executivos com suas camisas sociais e caminhonetes em fila nos restaurantes. Aqui não há taxímetro: entrar num táxi já custa 15 reais. Nos postos, a gasolina sai por 3.5 reais o litro (em São Paulo custa de 2.6 a 2.9 reais). Em um restaurante mediano, um prato morde 15 reais. Nos melhores, 80. Inflação é termo corrente. Todos têm um índice a dar. “Os alimentos subiram 200%”. diz o taxista a caminho do mercado. “Coisa de louco”. Mesmo.

“Todos querem sair daqui. O custo de vida é irreal”, diz um agente da PF que pede anonimato. Quando o policial veio para Altamira, em 2010, alugou uma casa com dois quartos por mil reais.

“Um ano depois, o cara me pediu 4.5 mil.” Ele vendeu sua casa em um condomínio fechado em Natal e comprou um terreno aqui por 60 mil reais, em uma rua de barro sem saneamento. Outros policiais vivem em uma república. Suas famílias não puderam vir por causa do custo de vida.

“Muitos proprietários deixaram suas casas para alugar. É o caos para alguns e uma mina de outro para outros”, contemporiza Artémis Cardoso, gerente de imobiliária. O aumentofoi de 200%. em média, diz. “Aqui é um paradoxo. A gente aluga casas de 5 mil em ruas de barro onde falta luz todo dia. Não falta gente atrás.” Uma loja de material de construção recém-aberta tem filas à porta. Ruas de barro “asgam adeiras com loteamentos de casas de três andares. No centro há sete farmácias em um quarteirão. Só em 2012 foram abertas 400 empresas na cidade, três vezes mais que em 2010.

Altamira é o paroxismo do Brasil que cresce sem infraestrutura. Não houve plano para preparar a cidade. As medidas compensatórias previstas pelo Ibarra. por entraves burocráticos, falta de kncw-how da prefeitura ou descaso do empresariado, em parte não saíram do papel. Não há água encanada nem saneamento básico. As poucas vias receberam asfalto, mas milhares de caminhonetes hoje dividem espaço com dezenas de ônibus vindos dos canteiros em engarrafamentos às 6 da tarde. Faltam escola e hospital. E falta luz – até na sede da Norte Erergia.

Atualmente, faltam até prostíbulos. Antes de Belo Monte, havia um só na região. Em dois anos, o número saltou para sete. com programas a 200 reais. Em 2013. após denúncia da presença de menores, todos fecharam. “Agora é só com agenciacor”. diz o taxista. “E tá mais caro. viu?”

Indígenas do México operam a própria empresa de telefonia celular – Notícias – Tecnologia

19 ago

Indígenas do México operam a própria empresa de telefonia celular – Notícias – Tecnologia.

Indígenas do México operam a própria empresa de telefonia celular

Em Villa Talea de Castro (México)

19/08/201319h33 Atualizada 19/08/201320h59

  • Carlos Salinas/AFP

    19.ago.2013 - Homem utiliza telefone na cidade de Talea de Castro, no Estado de Oaxaca (México). Por considerarem pouco lucrativo, grandes empresas de telecomunicações não instalam redes para a população de Talea. No entanto, a população local (predominantemente formada por indígenas) adotou um novo sistema e criou uma companhia telefônica própria chamada RCT (Red Celular de Talea)

    19.ago.2013 – Homem utiliza telefone na cidade de Talea de Castro, no Estado de Oaxaca (México). Por considerarem pouco lucrativo, grandes empresas de telecomunicações não instalam redes para a população de Talea. No entanto, a população local (predominantemente formada por indígenas) adotou um novo sistema e criou uma companhia telefônica própria chamada RCT (Red Celular de Talea)

Apesar de nenhuma empresa de telefonia celular ter se aventurado em seu povoado, escondido entre as montanhas do sul do México, Ramiro pode telefonar a seus filhos graças à primeira rede criada por e para indígenas no país.

“Bem-vindo à Rede Celular de Talea (RCT), para se registrar vá à rádio com esta mensagem”, diz um texto que chega automaticamente aos usuários de telefonia móvel que visitam o povoado de Sierra Norte de Oaxaca.

Os habitantes da Villa Talea de Castro, majoritariamente indígenas de origem zapoteca, vivem do cultivo do café, apesar de muitos jovens migrarem frequentemente a grandes cidades e até para os Estados Unidos em busca de melhores oportunidades.

“Tenho dois filhos que vivem fora do povoado e pelo menos dois ou três vezes por semana me comunico com eles”, conta à AFP Ramiro Pérez, um funcionário de um restaurante, convencido dos benefícios que a tecnologia trouxe a seu povoado.

“Além disso, meus clientes me pedem comida por telefone. Por apenas 15 pesos (US$ 1,15) ao mês, faço e recebo todas as chamadas necessárias para meus assuntos familiares e para meu negócio”, acrescenta o homem, de 60 anos, que até três meses era usuário constante das cabines telefônicas que cobravam “até dez pesos por minuto”.

  • Carlos Salinas/AFP

    Homem opera equipamento que permite habilitar comunicação móvel em Talea de Castro

Por considerar pouco rentável, as grandes empresas de telefonia celular se negaram durante anos a prestar seus serviços em Talea, mas a população adotou um sistema e criou sua própria companhia.

O modelo vem da organização Rhizomatica, que busca levar a comunicação móvel a áreas marginais por meio de um equipamento de sistema global (GSM) de baixo custo, software livre e tecnologia Volp (Voice over IP), que permite transmitir voz de forma digital por meio da Internet.

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Usuários de telefonia celular fazem piadas na web com (falta de) serviço; confira36 fotos

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Piadas sobre a falta de sinal das operadoras fazem sucesso em blogs de humor. As imagens são usadas para ilustrar posts com reclamações em relação a qualidade dos serviços oferecidos pelas empresas Leia mais Reprodução

Buscamos “utilizar todos os fragmentos do espectro radioelétrico que existem por todo o espaço aéreo mexicano e que as concessionárias telefônicas se negam a utilizar por inviabilidade financeira”, disse à AFP, Israel Hernández, um dos pioneiros do projeto.

Os indígenas obtiveram uma licença de dois anos da estatal Comissão Federal de Telecomunicações (Cofetel) para testar o equipamento, proporcionado por uma empresa norte-americana. Assim nasceu a RCT, que utiliza o espectro radioelétrico para chamadas locais e Internet para se comunicar com o restante do mundo.

Sem sinal das telefônicas Até Villa Talea de Castro, localizada a cerca de 115 quilômetros ao norte de Oaxaca (capital do estado homônimo), a América Móvil, a empresa de telefonia do magnata mexicano Carlos Slim que domina a América Latina com seus 262 milhões de assinantes, não tem operações.

O secretário da Sindicância Municipal, Alejandro López, comentou que uma das empresas à qual foi solicitado o serviço inclusive pediu à Talea – de 2.500 habitantes – um padrão de 10.000 usuários potenciais, além da construção de um caminho até um morro onde seria instalada a antena, assim como um trecho de rede elétrica de seis quilômetros.

“Apesar de algumas falhas técnicas, porque estamos em período de teste, o projeto foi bem-sucedido. Após três meses do começo das operações, temos mais de 600 usuários por mês e o equipamento que nos emprestaram para teste já é insuficiente porque só tem 11 linhas”, acrescentou o funcionário.

Por 15 pesos, os usuários podem realizar todas as chamadas locais que queiram com uma única condição: não devem falar mais de cinco minutos para que as 11 linhas não fiquem saturadas, explicou.

Se os habitantes precisam telefonar ao exterior, devem pagar pouco menos de 80 centavos de peso mexicano (USD 0,06) por minuto, um preço inferior à maioria das tarifas comerciais.

Diante do sucesso obtido, os sócios da RCT – que são todos os habitantes do povoado – decidiram comprar seu próprio equipamento com capacidade para 35 linhas simultâneas, que será instalado nas próximas semanas.

Segundo Hernández, a etapa seguinte do projeto consiste em formar uma cooperativa de povos indígenas “para solicitar em concessão ao Estado mexicano esse pedaço de frequências livres para se comunicar por telefonia celular com as comunidades rurais do país”.