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Dorgas para quê? E drogas para quem?

11 dez

Um século e meio de estudos sobre plantas medicinais.

Grande incerteza, todas as vezes em que o espírito se sento ultrapassado por si mesmo, quando ele, o explorador, é ao mesmo tempo o país obscuro a explorar e onde todo seu equipamento de nada lhe servirá.

O uso de plantas medicinais e substâncias psiqueativas passou no último século e meio, a ser um estudo científico.  Ludwig Lewin, o pioneiro farmacologista alemão, dizia sobre as drogas que, “com a única excessão dos alimentos, não existe na Terra substâncias que estejam tão intimamente associadas com a vida dos povos em todos os países e em todos os tempos” : (Brau, La historia de las drogas, 1974, p. 7).  Essa omnipresença das plantas enteogénas em todas as épocas e culturas permite supor que o consumo de substâncias alteradoras da consciência faz parte da condição humana, que buscou sempre meios para interferir no psiquismo.  “O desejo de alterar periodicamente a consciência é um impulso inato, normal, tão presente como a fome, ou ao impulso sexual”. As regras sociais que disciplinam esse impulso, ou seja, o uso do álcool e de outras substâncias psicoativas, são investigadas pela história da normatização das drogas.

Dentre as drogas existe, entretanto, uma categoria especial, que se distingue dos inebriantes (como o álcool), dos excitantes (como o café e a cocaína), ou dos sedativos (como o ópio), essa categoria especial é um conjunto de plantas extraídas e substâncias sintéticas que produzem efeitos psicoativos muito peculiares e característicos.  Esses efeitos foram chamados de “fantásticos”, por Ludwig Lewin, e se tornaram conhecidos mais vulgarmente como “alucinógenos” ou “psiquedélicos”. Do contexto sintéticos podemos citar basicamente o LSD, anfetaminas como o MDMA.

A Flora Amerindia, Africana e Sibérica apresenta uma variedade gigantescas de não somente plantas psiquedélicas como outras fontes naturais análogas, e são basicamente as seguintes: o mescalito, o cogumelo, a ayahuasca. Suas características fisio-químicas são a muito baixa toxicidade e a também baixíssima dose mínima necessária. Quase não produzem efeito fisiológico, exceto certa midríase (aumento da pupila) e taquicardia. A natureza fundamental do seu efeito é psíquica, esfera que sofre uma ação impactante desses enteogénos.

Mushrooms

O poderoso efeito psíquico foi o que tornou plantas como o cogumelo teonanacatl, o cacto peiote, o cipó ayahuasca, a trepadeira ololiuqui e etc, substâncias sagradas de diversas religiões americanas. O fascínio do olhar antropológico sobre esses cultos e as utilizações dessas drogas em diversas culturas desencadeou uma crescente e sistemática investigação etnobotânica. O conjunto de plantas muito singulares cuja denominação é objeto de controvérsia, vem sendo chamadas de “alucinógenas”, “enteógenas” ou “psiquedélicas”.

No último século e meio, os estudos sobre as substâncias alucinógenas abrangeram tanto os usos sagrados tradicionais em diferentes culturas, como o uso contemporâneo internacional, onde diferentes consumos de tais drogas produziram diversos fenômenos dentro de uma ampla cultura da droga, que inclui o surgimento de novas religiões, de grupos científicos de pesquisa, de circulos de experimentação, além de uma influência estética disseminada e de um uso recreacional popular, que supera a cultura exclusiva do álcool como lubrificante social: por exemplo as festas raves , que começou no ínicio dos anos 90, onde se despreza o álcool e se consomem psiquedelicos.

O que caracterizou o final da segunda metade do século XX, entretanto, foi o quase desaparecimento da pesquisa científica oficial de algumas das substâncias mais fascinantes da farmácia contemporânea e de seus promissores e florescentes usos em terapia, arte e psicologia experimental. Ao invés disso, uma política de guerra contra as drogas igualou psiquedélicos, opiáceos e cocaína numa lista oficial de substâncias proibidas pela ONU e consideradas como não-possuidoras de qualquer uso médico, provocando o sufocamento da investigação, e eliminação de pesquisas,  sobre substâncias análogas.

A política da guerra contra as drogas tem sido criticada como uma “Inquisição” que busca suprimir a dissidência psicofarmacológica e proibir o exercício da liberdade de consciência para produzir uma hipertrofia de lucros e de violência com laboratórios clandestinos, policiamento mental, lavagem de bilhões de dólares, milhões de prisioneiros, fiscalização através de testes compulsórios de urina, devastação aérea de plantações, guerras, cercos e invasões militares. Tal é o sentido do conceito de “inquisição farmacrática”, empregado por Thomas Szasz e Jonathan Ott, entre outros, para definir o fenômeno da campanha do proibicionismo das drogas, iniciada com a Lei Seca contra o álcool nos Estados Unidos, no início do século XX, e intensificada desde os anos 1960, por Nixon, através de uma “guerra” de conteúdo militar, comercial, industrial, financeiro, político e ideológico.

Vivemos simultaneamente, entretanto, a ampliação de um novo camp0 epistemológico em meio a uma guerra que utiliza os instrumentos desse potencial científico e tecnológico como armas, e coerção. Por um lado, a ciência química amplia os conhecimentos e os domínios sobre as sínteses refinadas de novos arranjos moleculares, e, por outro, produz uma intersecção com os domínios das ciências da subjetividade humana.

Alguns historiadores da América abordaram as consequências do impacto da regulamentação do consumo das drogas Lecturas mexicanassobre as sociedades coloniais americanas, entre os quais Aguirre Beltrán e Serge Gruzinski. Igualmente importantes também foram os autores que trabalharam sobre a questão da história das práticas de consumo alcoólico, em particular no caso do encontro intercultural entre a Europa e a América, como é o caso de Sonia Corcuera de Mancera e de William Taylor. Entre outros trabalhos que estudaram as práticas de consumo alcoólico e de alucinógenos na América podemos citar Borrachera y Memoria (Saignes 1993) e os estudos levados a cabo no Peru desde os anos 1960, que tratam do curandeirismo psiquedélico da sierra e da selva, com grande tradição de uso de San Pedro e ayahuasca. No Brasil, após algumas passagens pioneiras de Gilberto Freyre e Câmara Cascudo sobre a maconha e a Jurema, tem havido desde os anos 1980 um crescente interesse pelo fenômeno da religião do Santo Daime, com o surgimento de diversos livros, artigos e teses acadêmicas.

O renascimento psicodélico dos anos 1990 não se restringiu à revalorização da cultura juvenil das raves, da busca dos estados alterados de consciência, mas também se expressou numa intensa atividade editorial e na articulação através da Internet, Psychedelic Resource List de círculos de investigação e debate sobre tais substâncias. Algumas obras de investigação histórica e jornalística desvendaram a complexa e misteriosa história recente dos psiquedélicos.

As diversas formas de uso dos psiquedélicos têm se constituído como um campo original de conhecimento e de produção cultural, onde a psicologia, a farmácia, a medicina, a história, a literatura e a antropologia uniram-se para buscar compreender o papel das plantas e dos sintéticos produtores de estados de êxtase e que tiveram um papel histórico determinante.

Mps