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A Substituição dos Corvos

23 maio

A SUBSTITUIÇÃO DOS CORVOS

Através das revoluções, abaixo das controvérsias ideológicas, na própria sombra das palhaçadas políticas, vemos que o poder passa lentamente – com segurança – da pena empoada à pena empoeirada. Assim como a Igreja, senhora das consciências, foi senhora do mundo, governando príncipes e súditos, uns pelos outros, hoje, uma nova classe surgiu, homens que não comandam, mas que, entretanto, dirigem, detrás de suas mesas, para onde tudo vem e de onde tudo repartc. Sucessores da Igreja, levados ao poder pela Máquina, possuem desta última a desconcertante faculdade – filha da longa política de obscurantismo seguida pela primeira ~ de terem nascido escravos e viverem como tiranos.

Como se sabe, o maquinismo deveria gerar a Idade de Ouro: a liberação econômica que ele prometia só beneficiou os chatins. As profecias dos filósofos generosos foram desmentidas e a divisão social tão bem mantida pela Igreja mudou de forma mas não desapareceu, tamo é verdade que uma alteração econômica não acarreta necessariamente uma alteração proporcional dos costumes. As primeiras máquinas-ferramentas foram quebradas pelos operários porque eram instrumentos de opressão, elas ainda o são, hoje, mas apareceu de novo o fato, ao final de um longo século dc experiências trágicas, segundo 0 qual, progresso técnico, sc não suprime o poder, torna-o impessoal.

As democracias capitalistas, as tecnocracias, as ditaduras tendem sempre para a burocracia; os grandes dirigentes acabam sendo totalmente escravos das engrenagens administrativas por eles criadas. Uma evolução segue seu curso através dos mais cruéis sobressaltos da história: a consciência, atacada pelas perfídias da moral cristã, encontra-se cada vez mais cercada, perseguida, ameaçada hoje de morte por um regime cuja ambiçao é transformar 0 mundo num mecanismo tão perfeito que o pensamento nele seja inútil.

Para se tornar senhor do determinismo histórico, para abolir o acaso, combate-se na própria fonte das ações imprevisíveis: apersonalidade individual. As desigualdades e as dependências econômicas, as políticas e as censuras permanecendo à mercê do espírito genial que, do exílio, onde uma sociedade hostil o condena, consegue uma penetração fulgurante e revigora a chama da revolta, a poesia, o amor, que por atos de pura loucura quebram todas as cadeias, devem ser abolidas, não apenas em suas manifestações, mas até mesmo como desejos. É a que se dedicam aqueles que submergcm a imaginação dessas pin-ups sem sexo e sem cérebro que acabariam por desviar de seu próprio objeto o desejo erótico; os pedagogos, cujo ensinamento sufoca a curiosidade desde  suas primeiras tentativas; os arquitetos, que já começam a limitar as paisagens dessas fachadas brancas e monótonas como páginas de livros contábeis, quadro perfeito de uma vida reduzida a leis estatísticas; os psiquiatras, que fazem de uma ciência de liberdade, a psicanálise, um instrumento de submissão, e tantos outros… citemos apenas de memória a literatura, a imprensa, o rádio, 0 cinema, quase inteiramente ocupados em aumentar de efervescências estéreis os espíritos e se resignam pouco a pouco à esclerose.

Vê-se muito bem que os protestos que se levantam de V dos os lados, limitados, rcstringidos, se eles estremecem ou  mesmo derrubam as velhas estruturas, e ainda que denunciem em todos os lugares a burocratização, não impedem esta de progredir sobre uma frente contínua, ameaçadora como uma fatalidade.

É certo que a liberação econômica é condição necessária para a liberação moral, mas isso não significa em absoluto que seja condição suficiente. No ponto em que estamos é muito fácil conceber um mundo onde, ao preço do conformismo mais absoluto, isto é, da mais completa indiferença intelectual e moral, o conforto material, felicidade perfeitamente entediante, seria acessível a  todos.

A liberdade, que é poesia, que é amor, exaltação das aspirações mais profundas do ser, ampliando indefinidamente 0 conhecimento e o desejo de conhecimento, só sobreviverá às catástrofes que nos prometem, se a revolta, não se deixando represar pelos obstáculos da necessidade imediata, levantar simultaneamente todas as colunas do templo.

Notas:
1 Testemunho de um cientista: “É em vão que se procuraria nestas (nossas
universidades) um curso que coloque o estudante avançado em contato
com um único dos grandes problemas que enumeramos; os próprios ele-
mentos sao lá muito amiúde ensinados de tal maneira que 0 estudante tem
tudo para reaprender se quiser ir mais longe; a extrema rigidez de um
mandarinato fundado sobre instituições acadêmicas obsolctas faz com
que toda tentativa de renovação, se ela não permanece puramente vcrbal.
pareça destinada ao fracasso” (André Weil, em Les grands courants
la pensée mathématique, apresentados por Le Lionnais, p. 318).

2 “Ciência da liberdade” porque, muito mais seguramente que as ciências
da matéria, a psicanálise se mostrou em condição de denunciar a hipo-
crisia das morais tradicionais.

Journal Le Libertaire

Gerard Legrand

15 de Fevereiro de 1952